A cabeça dos crentes: ‘aos 16 anos, descobri que tinha sido criado num regime totalitário’

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Pastor-mirim (o maior) relaxando com o primo e o irmão, 1980 e telefone de cadeado.

Foto: Acervo Pessoal/Fábio Marton

Foi numa noite em mil novecentos noventa e quatro e lá-se-vão-vinte-e-seis-anos que descobri que tinha sido criado num regime totalitário. O adolescente secundarista miseravelmente solitário havia entrado numa igreja pentecostal. Era um nômade, não tinha uma congregação para chamar de sua. A fé a cada dia mais perto de descarrilar, os valores dos crentes me soando cada dia mais alienígenas.

Não era alienígena a palavra que estava procurando. Foi a que encontrei naquele dia.


Do púlpito, o pastor, um homem firmemente na média de classe média, criatura de apartamento, mesmos trejeitos e mesma medida de carisma de um gerente de concessionária de carros.

Convido a Igreja a Abrir a Palavra do Senhor em Romanos, capítulo 13.

1. Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.


2. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.


3. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá.

A igreja na qual congregava naquele dia havia sido uma escolha aleatória. Havia visto no caminho para o estágio, do ônibus. Descera do ponto e lá estava. Era uma igreja em um bairro remediado. Uma “comunidade”, como era moda então batizar igrejas pentecostais novas em Curitiba. Igreja de crentes que não se vestem para parecer crentes. Calça, camiseta, maquiagem, salto, banda com guitarra elétrica e bateria. Do tipo que quem está fora costuma relacionar com atitudes mais arejadas, menos fanáticas. Do tipo de seu colega de trabalho que faz piada com tudo, só não aparece no happy hour e costumava não gostar de falar de política até 2018.

Deus escolhe tudo neste mundo, não há folha que caia de uma árvore sem a permissão de Deus. Toda a autoridade emana de Deus e é escolhida por ele. E isso não é só o governo: é o trabalho, é dentro de casa. Filhos obedecem à mãe, a mãe ao pai, o pai ao chefe, o chefe ao patrão, o patrão ao presidente.

Eu não sabia naquela época, mas a história da folha caindo da árvore não é bíblica. É uma citação do Corão, 6ª Surata versículo 59. Imagino que muitos dos pastores que repetem a frase até hoje não a fariam se soubessem da origem.

Jesus vivia sob o Império Romano. A maioria dos judeus então se revoltava e tentava até mesmo assassinar os invasores – e eles seriam castigados por Deus perdendo seu país. Revoltar não é o que ensinou Nosso Senhor. Jesus disse: “a César, o que é de César, a Deus, o que é de Deus”. Pois a autoridade na Terra é também a autoridade dos céus. Deus havia colocado César para controlar Israel, e quem enfrentou Roma não fez como Deus queria. O cristão que realmente entrega sua vida nas mãos do Senhor aceita sua vontade.

Era mais uma tentativa de se reconciliar com a fé em que havia sido criado. Saltava de igreja em igreja – deviam ter sido umas sete nos últimos dois anos. Eu ia um dia, tentava frequentar, mas me desencantava na segunda ou terceira visita. Inevitavelmente, começava a perceber que havia algo de errado com as pessoas, algo que eu não conseguia apontar exatamente. Uma espécie de uncanny valley da personalidade – como máquinas que imitam humanos se tornam mais repulsivas quanto mais parecidas são, aqueles crentes tão integrados, tão de classe média, estavam a um milímetro de soarem naturais, mas uma coisa escapava, traía, como a esquisitice perturbadora de um robô. Isso estava também em meus parentes, mas esses eu conhecia desde sempre, em suas falhas, sua hipocrisia. Em desconhecidos, era repulsivo. Aos 16 anos, eu era crente, mas não queria mais saber de crente.

E a paz está em aceitar Seu plano. Crianças obedecem à mãe, a mãe ao pai, o pai ao chefe, o chefe ao patrão, o patrão ao presidente. Não cabe ao cristão contestar a hierarquia que Deus terminou. Se todos aceitam seu lugar, há felicidade na Terra. Amém?

Não disse amém. Saí do banco, fui para fora da igreja. Com a luz e o barulho saindo da janela, fiquei pensando no que aquilo significava. Por que aquilo me incomodava. Por que havia feito eu me levantar. E o que não havia mais como negar é que era uma fé política. Antidemocrática. Totalitária. “Esse pastor é um fascista”, pensei. “Todos são.” Nesse dia, dei as costas para a igreja. Enfiei as mãos no bolsos e andei.

A régua errada

“Fascista” não era uma palavra exótica para alguém de 16 anos que tinha em história sua matéria favorita e acabaria virando jornalista de história (isso existe). Fascismo era a ditadura voluntária em que vivia minha família, uma na qual Deus, um monarca tirânico da Idade do Ferro, e o Diabo, seu inimigo designado, na prática cúmplice, disputam cada pensamento e cada ação sua – e qualquer dissidência só pode ser Satã falando na sua orelha. Uma “crimideia”, “pecadoideia”, melhor rezar e se arrepender agora, vai que Ele decida acabar com o mundo daqui a 15 segundos e você vá parar no andar errado? Um adolescente descobrindo que o mundo em que fora criado era um ninho de “pecadoideias”.

Nunca mais pisaria numa igreja, exceto por casamento e velório. Virei um dissidente, um refugiado. Exilado do Brasil de Bolsonaro, que já existia quando ele ainda gastava suas tardes cogitando explodir bomba em quartel. É o país em que vivem mais de 22% dos brasileiros.

Vindo dessa experiência, muito da interpretação feita por jornalistas e alguns acadêmicos me parece errar a marca. Dezenas milhões de brasileiros aderem a essas ideias e as apregoam a quem quiser ouvir, literalmente dia e noite, no meio da madrugada, mas ainda parece ter algo de misterioso.

A confusão começa pelos termos: “evangélico” e “neopentecostal”. No censo e na imprensa, evangélico é sinônimo para protestante. O protestantismo é imensamente diverso e engloba igrejas que aceitam pastores gays e igrejas que celebram mortes de guerra gays. Na história do protestantismo, evangelismo é um movimento fervoroso e ultraconservador: o born again christian, sinônimo para fundamentalista no uso comum (no uso estrito, fundamentalistas são um ramo específico dos evangélicos). O contraste é o bem mais discreto protestantismo tradicional.

A opinião de um “evangélico”, assim, pode não querer dizer nada. Se parte de um protestante tradicional, não é mais representativa dos evangélicos que a de um padre. Quem procura pelo “evangélico progressista” encontra: em denominações tradicionais, que permitem esse progressismo, ou um pastor livre-pensador isolado, balde no oceano. Tentar achá-lo em denominações radicais é literalmente querer achar um progressista de extrema direita.

Eu cresci nesse protestantismo teocrático e totalitário que no Brasil é representado em sua imensa maioria pelos pentecostais. O “neo” não faz diferença nenhuma. No mundo pentecostal, neopentecostal não existe. Não há uma igreja que coloque na fachada: “Igreja Neopentecostal Boleto de Cristo”. Malafaia e Feliciano são da Assembleia de Deus, de 1911, muito antes do “neo” nos anos 1970.

“Pentecostal” vem do milagre de Pentecostes, quando os apóstolos falaram em línguas estrangeiras (Atos, capítulo 2). A glossololia, o “dom” de línguas, é o que caracteriza universalmente essas igrejas. Ela é o maior sinal de que a pessoa foi batizada no Espírito Santo, um segundo batismo puramente espiritual e milagroso, e que passa daí potencialmente a contar com poderes milagrosos ela própria.

Eu fui “batizado no Espírito Santo” – e não sei se preciso de aspas, porque todo mundo reconheceu isso então – aos 15 anos. Então, a coisa se manifestou não só pelas línguas, como por meio de uma obturação na minha boca que se transformou milagrosamente em ouro branco, com uma pomba esculpida em cima. (Cinco anos depois, o dentista trocou o material, dizendo que não era um amálgama comum, mas um tipo vagabundo e cheio de infiltrações e que, por acaso, tinha a mesma cor do ouro branco. Sobre o dom de línguas, quando acabar a epidemia, me pague uma cerveja que eu demonstro para você.)

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Eu (no meio) com a família na Festa Junina Gospel 2009: tio, tia, irmão, prima, tudo bebendo o “crentão”, que é só com açúcar, sem pinga.

Foto: Acervo Pessoal/Fábio Marton

O presente de Deus

Quando você entende o autoritarismo teocrático dos protestantes radicais, seu casamento com Bolsonaro parece algo que sempre esteve prestes a acontecer. Podia ser uma mera preferência eleitoral – e crentes sempre votaram em gente que não representa sua religião, ao menos para o Executivo. Mas é muito mais. É uma divinificação.

Não é muito difícil imaginar por quê, mas vivo em outra galáxia que minha família e faço questão de viver. Mas, em 2018, o algoritmo do Facebook parece ter notado meu interesse na palavra “Bolsonaro” e começou a me trazer o que andavam dizendo. É um roteiro que todo mundo que tem família conhece, mas talvez um pouco mais dramático: no fim do primeiro turno, uma prima jogou uma imagem do hoje famoso estilo bolsonarista dizendo que iria começar o governo de Deus na Terra. Como não deu primeiro turno, dias depois, ela circulava outra imagem lamentando que a democracia tinha falhado e infelizmente ia ter que ser ditadura militar.

Eu fervi. Falei para ela se sabia o que acontecia com gente da minha profissão numa ditadura. Disse que ia me lembrar dela no pau-de-arara. “Respeite minha opinião!”, foi a última coisa que ouvi dela desde então. Me bloqueou.

A lógica de endeusar Bolsonaro tem a ver com esse determinismo divino, de tudo ser uma escolha ativa de Deus. Mas há uma aparente contradição nisso: Deus, que escolhe tudo, só pode ter escolhido também os petistas, aqueles da exposição que faz crianças virarem trans, kit gay e mamadeira de partes pudendas que não cabe a um crente mencionar em público. O PT que botou no armário suas propostas sobre aborto, fez uma aliança profana com a Universal e mais ou menos empatou com Aécio entre pentecostais em 2014 (inclusive foi melhor entre eles do que entre protestantes tradicionais, que deram a Aécio 60%). O que, em 2018, seria execrado por 71% dos protestantes, pela última pesquisa do Datafolha (a pesquisa não diferenciou pentecostais de tradicionais, mas é quase certo que votaram ainda mais em peso).

Deus deixou esse partido governar porque é um deus caprichoso, e o capricho é explicado na história de Jó. O rico servo de Deus levou ao Diabo uma provocação: questionar se ele não tinha tanta fé apenas por ser tão afortunado. Deus topou a aposta e permitiu ao Diabo destruir tudo o que Jó possuía: sua família, seus servos, sua propriedade, sua riqueza, sua saúde. Jó nunca traiu sua fé e, vencida a aposta, Deus devolveu sua riqueza, em dobro. “Devolveu” também a família, mas era uma nova, já que a primeira havia morrido.

Como com Jó, Deus testa o crente hoje. É necessário: se Deus tudo escolhe, então coisas negativas também são sua escolha. Podem ser mero castigo, Deus dando a crise como punição ao um país que apoiou um partido que era “contra o cristianismo, a favor do comunismo e aborto”. E pode ser prova de fé. Dilma “satanista” como uma decisão de Deus pode ser entendida como Deus testando a fé dos crentes, dando a eles o tratamento de Jó. Passada a provação, Bolsonaro seria o presente Deus devolvendo aos fiéis em dobro.

Os radicais evangélicos nunca tiveram suas ideias representadas no Executivo. É a dita pauta dos costumes, que é um erro mortal acreditar ser cosmética. É a base. Finalmente, o cristão se sente justificado em dizer que gays são possuídos pela pomba-gira, no lugar de criarem leis anti-homofobia. Que religiões afro são coisa de satã, no lugar de serem promovidas como parte do patrimônio cultural brasileiro. Que artistas são uma categoria particularmente maligna de pessoas. Bolsonaro só pode ser Deus premiando sua perseverança em enfrentar o que o mundo profano vê como civilidade básica.

Importante notar: crentes também pensam em coisas práticas, é óbvio. Ou não funcionariam em sociedade. A parte religiosa vai em conjunto com razões seculares, e sempre que alguém não é de Deus tem outros vícios – e vice-versa. Crentes tendem a ser meritocratas pró-mercado: ser rico é uma dádiva de Deus, uma visão herdeira do calvinismo do século 17. Corrupção e crime são preocupações centrais. Ajudar os necessitados é cristão, mas o estado arranca o dinheiro dos bolsos dos crentes para dar a quem não é de Deus (como os – esteja reprimido! – artistas e professores comunistas).

Por fim, como se viu com o PT, o apoio dos crentes é frágil. Se hoje você é presente de Cristo (ou ao menos uma escolha aceitável), amanhã é descoberto como uma farsa do “outro cara”. Bolsonaro pode bem acabar como um falso profeta. E a epidemia, pelo pouco contato que ainda tenho com a parentada, parece dividir seriamente os crentes. Talvez pastores passem a mencionar que é um “idólatra católico” e compartilhar memes com suas fotos no santuário de Nossa Senhora Aparecida. Como fizeram um dia com o PT, vão agir como se nunca tivessem apoiado. Pecados passados, Deus tudo perdoa, todo mundo está sujeito a ser tentado por satã. A cobra volta para o ovo, o cristofascismo persevera em busca do próximo escolhido.

Este depoimento não é para ser um manifesto contra os crentes. Mas contra teologias cristofascistas. A esperança seria os radicais se tornarem protestantes tradicionais. Não me parece provável: há certos prazeres, emoções, convicções que não podem ser atingidas em igrejas à moda antiga, para as quais o mundo não é mágico e não se vive em cruzada eterna com tudo que é de fora.

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