A grande Bielorrússia

São várias as teorias sobre a origem e as causas do incêndio na cidade de Roma, ocorrido em 64, e sem dúvida a mais fascinante é a que o atribui à extravagância e loucura do Imperador Nero que, para seu prazer e tendo em vista a reconstrução de partes da cidade que não lhe agradavam, terá ordenado que se lhe ateasse fogo. Existe também a teoria que defende a autoria de Nero mas com a intenção de incriminar os cristãos porque continuavam a recusar prestar-lhe culto religioso. Uma parte extraordinária desta história, não confirmada pela História, é a que descreve Nero a tocar a sua harpa enquanto a cidade se consumia em chamas.

Foi há muito tempo. O suficiente para se poder rever aquilo que foi uma tragédia – com perdas de vidas humanas, destruição de casas e abrigos e de património histórico – sem pensar muito nesses aspectos. É pois possível deter a atenção na ideia de Nero a tocar a sua harpa e no seu processo de meditação – ou de pensar na vida (a distinção entre uma coisa e outra é genética mas nunca consegui fazê-la) – enquanto tudo ardia e no eventual prazer que sentiu a fazê-lo.

Há uma beleza qualquer na destruição, no caos, na revolta, no que arde, até na explosão de uma bomba; a mesma beleza que existe na natureza, na pureza das paisagens intactas e na harmonia. Desta beleza falava Lester Burnham – Kevin Spacey no filme American Beauty – um homem de meia idade que odiava o seu trabalho e de um modo geral tudo na sua vida. Lester rejeita essa vida e de forma desastrada e poética tenta enxertar, na que tinha, uma nova. Coisas que normalmente não correm bem. Assim foi. Lester foi assassinado. As suas palavras – atribuídas ao seu espírito uma vez que sucedem imediatamente o momento da sua morte, à semelhança das imagens do voo errático de um saco plástico no mesmo filme – são inesquecíveis: “It´s hard to stay mad when there´s so much beauty”.

Quero falar-vos da Bielorrússia. Trazer para mais perto o drama em que vivem milhares de pessoas numa das lutas políticas mais importantes da actualidade e não falo da importância geoestratégica.

O actual presidente Alexander Lukashenko, no poder há 26 anos, obteve nas eleições de 9 de Agosto, e segundo a Comissão Eleitoral Central, mais de 80% dos votos. Desde então, e inconformados com um resultado no qual ninguém acredita, milhares protestam nas ruas e há repressão de extrema violência por parte das forças de segurança.

Assistir à forma como estes manifestantes vão para a rua arriscar as suas vidas para defender aquilo em que acreditam é transformador. São vidas. É na Bielorrússia que está a beleza de que falou Lester. Está a acontecer agora. Ela existe quando, num mundo em modo pandemia, vemos o abdicar do uso das máscaras e o esquecimento do distanciamento físico por uma causa sincera e justa. Existe no simbolismo do derrube do último ditador da Europa. Existe na coragem com que aqueles manifestantes enfrentam forças de segurança facínoras, na resistência à violência e à tortura.

É então possível depositar ali o nosso romantismo político, que não tem onde pousar perante a decadência do sistema, e a partir daí deixarmo-nos inebriar pelas emoções?

Não, nada disso faz falta, nada disso lhes faz falta.

São cidadãos a lutar pelo seu direito a não ser oposição mas sim povo. Um povo que quer coisas concretas como eleger os seus representantes, um povo que exige ser tratado com respeito, um povo que não aceita a violência e a violação sistemática dos direitos humanos (já aqui voltaremos. Sempre que ouço falar numa intervenção para defesa dos direitos humanos estremeço). O povo da Bielorrússia quer um 25 de Abril mas não o conseguirá com cravos e nem com os nossos sentimentos.

É obrigatório pousar a harpa.

O que se passa na Bielorrússia diz respeito ao colectivo mas sobretudo ao colectivo bielorrusso. O povo age nas ruas por conta própria, sabe exactamente o que quer mas desconhece-se qual a sua verdadeira organização e se ela existe. Se merece ser apoiado e financiado? Tenho a certeza que sim sobretudo se é sabido que o presidente Alexander Lukashenko e a sua governação têm o apoio, e financeiro também, de Putin.

Mas que não seja a troca do costume. Sobretudo que não se use a desculpa do costume: a defesa dos direitos humanos para intervir num país e condicionar o seu destino político de uma forma que não concretize a vontade dos que lutam. A história recente é profícua em “libertação de povos” que não deveriam ter acontecido da forma que aconteceram e que, claro, não constituíram libertação nenhuma. Alguns exemplos: Kosovo, Iraque e Síria.

Quando ouço a invocação da defesa dos direitos humanos lembro-me da noite em que na Câmara dos Deputados, no Brasil, se votou o impeachment de Dilma, uma sessão em que sucessivamente os deputados se levantavam e declaravam, antes de indicarem o sentido de voto: “Em nome de Deus”. Quando a intervenção começava com aquela invocação era absolutamente certo o que se iria passar a seguir. Invoca-se o melhor – para uns direitos humanos, para outros Deus – para fazer o pior.

A história obrigou-nos a ter consciência de que é preciso ter cuidado, obrigou-nos a desconfiar não do povo que luta mas de quem o quer ajudar supostamente em nome da sua libertação e dos seus direitos humanos. Não costumam ser intervenções desinteressadas e só essas servem o que procura quem luta e o que deseja quem sente como suas quaisquer lutas pela liberdade.

O problema é que no embalo da comoção com os manifestantes da Bielorrússia podemos esquecer-nos deles e ficarmos pela projecção dos nossos sonhos e idealizações, deixarmo-nos cegar, e deixar acontecer o pior. O pior como já aconteceu ali perto, na Ucrânia.

Do que se percebe agora não é evidente qual a tendência política dos manifestantes e é verdade que não se deve ficar indiferente a isso. Seria normalmente a primeira análise a fazer. Desta vez isso não é justo. Está em causa o direito a terem um sistema democrático. Espero e torço para que cheguem a uma democracia de ideologia não liberal mas espero sobretudo que cheguem onde quiserem. Chama-se exercício da liberdade, resultado de eleições livres.

Há ali essa vontade política firme: a de ir a eleições justas mas, e não vejo como paradoxo, a forma de lá chegar tem traços anarquistas, caóticos e espontâneos. Há novos modelos de solidariedade, e até de financiamento, e novas ligações para a circulação de informação com o exterior. Não é nada clara a representação destes movimentos pela líder da oposição oficialmente derrotada nas eleições cujo resultado os manifestantes contestam: “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

A propósito da circulação de informação dou-vos conta dos relatos feitos por alguns cidadãos da Bielorrússia residentes no país e fora dele. É arrepiante o que contam, são arrepiantes as imagens que mostram. É uma reportagem directa, com imagens não tratadas e, claro, sem mediação de quem cumpre um código deontológico na passagem da informação. Até neste aspecto o que se passa ali faz história, um pouco como acontece com o BLM. Quem quer imagens e relatos, quem quer mais informação acaba por ir a contas privadas em redes sociais e não às dos jornais. O que dizer mais sobre isto? Mais vale existir a consciência de que assim é para que se possa definir uma estratégia para o jornalismo que não envolva jornalistas e jornais a fazerem de músicos da orquestra do Titanic.

O ponto a que chegou a crueldade na Bielorrússia deve ser descrito. Não se deve virar a cara. Até porque descrever essa crueldade é também descrever a fibra dos manifestantes bielorrussos. Este artigo não é jornalístico mas não podem ser ignoradas as detenções ilegais, a tortura e espancamento de milhares de cidadãos nas prisões, os milhares de desaparecimentos na sequência de actuações policiais, os homicídios, a violência policial nas ruas à vista de todos, o clima de inaceitável repressão.

Na Bielorrússia bate o coração do mundo.

Borges poderia chamar-lhe o Aleph. O ponto, num sítio improvável, onde tudo está: a visão do passado e a do futuro, o caos mas a possibilidade de uma ordem qualquer, a crua realidade e o acreditar num sonho. Só acreditar vence o medo do perigo mais que certo, a superação dos limites da dor. Só acreditar num sonho permite arriscar aquilo que não se pode perder; a vida, os amigos, a família e o seu sustento.

Conseguir a liberdade poderá curar as marcas de quem passa por isto. O tempo também mas o tempo sozinho, como li no telemóvel da minha filha, cura presuntos.

Aos manifestantes deixo um recado:

Não aceitem ser transferidos para a ala covid. Continuem.

(Не прымайце, каб вас перавялі ў камеру палата. працягваць)

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