A honestidade compensa?

Pedro Fontes Falcão

Portugal pode agora apresentar explicações, mas poucos lhe prestam atenção, e já não é fácil mudar rapidamente essa imagem de insegurança, especialmente quando outros se aproveitam da nossa imagem de insegurança entretanto gerada.

Nas negociações que faço e naquelas entidades em que colaboro e apoio em negociações, coloca-se muitas vezes a questão da honestidade nas interações. A questão que ultimamente me têm colocado é se os países devem ser honestos na divulgação da realidade de crise sanitária, pois podem sofrer repercussões por isso, ao contrário do que poderá acontecer aos desonestos.

É um tema complexo, embora seja claro que, geralmente, a desonestidade é prejudicial quando o desonesto é desmascarado, pois afeta a credibilidade do desonesto (países, empresas, outras entidades, particulares). É também prejudicial para quem se sente mal por ter sido desonesto, mesmo que não desmascarado.

Atribui-se a Friedrich Nietzsche a afirmação de que “eu não estou triste por me teres mentido, estou triste porque a partir de agora não posso acreditar mais em ti”. Embora teoricamente concorde com a afirmação, admito que várias situações de desonestidade são rapidamente esquecidas pelas pessoas, o que me surpreende.

Para além disso, há quem seja honesto e quem não perceba que “para além de ser, é preciso parecer”. Ou seja, há quem trabalhe muito bem a imagem de honesto, mesmo não o sendo, mas consegue manter essa imagem.

Creio que a principal questão é a gestão de imagem dos países. Sendo a honestidade algo a valorizar, há atenções a ter. Por exemplo, se um grupo de países apresenta o número de mortes por covid-19, e outro grupo apresenta o número de mortes com covid-19 (se uma pessoa assintomática testada positiva cair das escadas e morrer, entra na estatística de número de mortes com covid-19?), então o segundo grupo de países vai ter um número mais elevado de mortes e parecer estar em pior situação do que o primeiro grupo de países. Será que é ser desonesto procurar alinhar um indicador único comum a todos os países e se apresentar o número de pessoas que morreram por covid-19?

E quando se divulgam números, não se deve ter em conta as análises feitas por quem classifica os países em termos do seu grau de risco relativo à covid-19? No caso de Portugal, estamos muito mal classificados em muitas análises internacionais e a imagem já ficou muito prejudicada. Portugal pode agora apresentar explicações, mas poucos lhe prestam atenção, e já não é fácil mudar rapidamente essa imagem de insegurança, especialmente quando outros se aproveitam da nossa imagem de insegurança entretanto gerada.

As imagens são feitas pela generalidade das pessoas com base em dados muito simples. Temos de perceber isso, para sermos honestos (não compensa ser desonesto, na minha opinião) mas não sermos prejudicados por uma má gestão dos dados que apresentamos e que nos afetam a imagem…

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