“A Vida Invisível”, um melodrama tropical sobre a opressão do feminino

Embora seja apenas inevitável as discussões sobre o Oscar aproximarem “A Vida Invisível” de “Bacurau” – dado que as duas produções possuem a mesma “origem” premiada no Festival de Cannes e surgiram como candidatas maiores ao cargo de representante brasileiro no prêmio da Academia -, a princípio o projeto que melhor serve neste esforço feito a fórceps de “comparar” a adaptação do livro de Martha Batalha com outros nacionais celebrados do circuito de festivais seja “Pacarrete”, filme estrelado por Marcélia Cartaxo que roubou a cena na premiação do Festival de Gramado este ano. É um paralelo mais coeso, pelo menos, por uma questão de formato popular e de relação tecida com figuras já canonizadas da trajetória cinematográfica do país. Mesmo Sonia Braga estando envolvida no suspense tecido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, sua posição na história é bem mais periférica em relação às ocupadas respectivamente por Cartaxo e Fernanda Montenegro nos trabalhos de Allan Deberton e Karim Aïnouz, que desempenham cada uma a seu jeito um papel vital nessas histórias.

Não que o fórceps desapareça a partir desta mudança de foco (até porque o tratamento dado às atrizes em nada se assemelham), mas trazer “Pacarrete” à mesa ajuda a definir em que lugar exatamente o longa de Aïnouz se localiza dentro deste vasto cenário da história do cinema brasileiro. Como no filme de Deberton, “A Vida Invisível” não hesita em criar laços imediatos com formatos mais tradicionais de história, ainda que os gêneros buscados habitem pólos opostos – enquanto o primeiro vai atrás da comédia, o segundo persegue o melodrama. Se esta decisão implica ao espectador adentrar terreno mais ou menos conhecido, ao diretor o obriga a reconduzir seu modo de operação a estruturas maiores, pensando-o para uma formatação mais ampla e o qual expande com naturalidade quaisquer jogos simbólicos desempenhados.

O diretor Karim Aïnouz

Este é um desafio e tanto para um cineasta como Aïnouz, que nasceu na cena sob a aura do cinema de autor e desenvolveu isso a partir de uma relação direta com as artes plásticas, um campo que bem ou mal sempre reforçou esta tendência da figura criativa como máxima detentora do controle. Não é à toa, então, que o longa surja a princípio desta intermediação, com o diretor vendo na intensidade de seu processo um método possível de dar vida à história das irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), cujas vidas são definidas a partir do momento em que elas decidem acatar ou não os destinos pretendidos pelo pai (António Fonseca): enquanto a primeira aceita essa condição e se casa com Antenor (Gregório Duvivier), a segunda foge num navio e volta grávida de um marinheiro desconhecido, por consequência sendo expulsa da família e “condenada” a habitar uma existência apagada em suas origens.

Para tais fins, Aïnouz não hesita em recorrer a ferramentas conhecidas, encontrando nas cores da fotografia de Hélène Louvart uma forma de extravasar e organizar o filme em cima do fluxo emocional das protagonistas – ainda mais dado a exposição das estruturas paternalistas em jogo, uma que sem grandes reviravoltas torna-se no eixo maior da trama. Se o azul delimita o espaço de opressão, o amarelo surge como um alívio (de memória da irmã para Eurídice, de independência a Guida), enquanto o vermelho atua como base dos momentos de maior explosão emocional, e é nessa intercalação visual que o filme permite ao espectador sentir as idas e vindas de ambas as personagens no decorrer dos anos. A abstração é primordial aos efeitos do longa, um esforço traduzido em aceno logo no início com as encenações de Stockler e Duarte procurando uma a outra numa imensa floresta tropical.

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