Aranha – opinião | Neymar é favorito a cargo na luta contra racismo

Apesar de surgirem recentemente inúmeras ações na luta contra o preconceito racial, o mundo presenciou mais uma manifestação preconceituosa no último domingo (13), durante o confronto entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha, pelo Campeonato Francês.

Nos minutos finais da partida, Neymar “deixou de lado” o que estava acontecendo em campo para expressar a sua indignação contra o zagueiro Álvaro González, que teria feito injúrias raciais contra o brasileiro. O camisa 10 do PSG alega que o defensor espanhol teria o chamado de “mono, hijo de puta” (macaco, filho da puta).

Com uma carreira vitoriosa, figurando entre os maiores jogadores de todos os tempos do nosso futebol e um dos atletas mais bem pagos do planeta na atualidade, Neymar não conseguiu se livrar de uma cultura doentia de ofensas racistas.

Neymar, que já teve seu posicionamento sobre racismo questionado em outros tempos, está expondo cada vez mais a sua a repulsa e revolta em situações como essa. Já havia feito isso em abril de 2014, quando saiu em defesa do amigo Daniel Alves, alvo de discriminação durante jogo do Barcelona, pelo Espanhol. Um torcedor do Villarreal atirou uma banana na direção do lateral, que desdenhou do racista ao comer a fruta e cobrar o escanteio em seguida.

Tommie Smith (centro) e John Carlos fazem o gesto dos

Tommie Smith (centro) e John Carlos protestam no pódio dos 200m dos Jogos Olímpicos do México-1968

Imagem: Associated Press

Estas atitudes demonstram que Neymar está amadurecimento e estes acontecimentos tão próximos a ele estão despertando aquilo que muitos esperam de um grande ídolo: posicionamento na luta antirracista e defesa das classes sociais mais frágeis.

Neymar tem assumido um posto onde outras lendas do esporte já estiveram na luta contra a segregação racial. Foi assim com o boxeador Muhammad Ali, os velocistas Tommie Smith e John Carlos — protagonizaram o famoso protesto ao usarem luvas negras e punhos cerrados no pódio dos 200 m raso da Olimpíada da Cidade do México, em 1968 — e o quarterback Colin Kaepernick, que chamou a atenção do mundo e passou a ser boicotado na NFL depois de se ajoelhar durante hino nacional americano — ele chegou a ser duramente criticado pelo presidente Donald Trump, que ainda era um candidato à Casa Branca.

LeBron James (ao centro) se ajoelha durante execução do hino nacional americano em protesto antirracista - Mike Ehrmann/Getty Images/AFP - Mike Ehrmann/Getty Images/AFP

LeBron James (ao centro) se ajoelha durante execução do hino nacional americano em protesto antirracista

Imagem: Mike Ehrmann/Getty Images/AFP

As lideranças internacionais mais emblemáticas na atualidade nesta luta contra o racismo são o inglês Lewis Hamilton, piloto da Mercedes na Fórmula 1, e o americano LeBron James, astro dos Los Angeles Lakers na NBA.

O futebol, esporte mais popular do mundo, no entanto, ainda não tem um grande nome nesta luta contra a discriminação racial. Acredito que este posto está reservado a Neymar. O fato de ele ter se posicionando desta maneira, sendo mais enfático, nos deixa otimista por causa da sua importância no esporte e pela sua influência. Apenas para se ter uma ideia do seu alcance, ele é o brasileiro mais popular do Instagram com mais de 142 milhões de seguidores.

Lewis Hamilton usa camiseta em homenagem a Breonna Taylor no GP da Toscana - Dan Istitene - Formula 1/Formula 1 via Getty Images - Dan Istitene - Formula 1/Formula 1 via Getty Images

Lewis Hamilton usa camiseta em homenagem a Breonna Taylor no GP da Toscana

Imagem: Dan Istitene – Formula 1/Formula 1 via Getty Images

Seria fundamental para que os jogadores brasileiros, principalmente os que atuam aqui no país, seguissem o exemplo do Neymar.

Porém, não podemos exigir e cobrar deles se não dermos o apoio necessário e se a Fifa não os blindar, porque, ao longo da história, todos os atletas brasileiros que se posicionaram contra o racismo acabaram, de alguma forma, perseguidos, silenciados e tiveram as suas carreiras prejudicadas, principalmente os que não conseguiram provar as injurias.

No meu caso, naquela partida do Santos contra o Grêmio, em Porto Alegre, pela Copa do Brasil 2014, ninguém quis filmar ou não quiseram divulgar. Para a minha sorte, uma emissora liberou as imagens dando credibilidade ao meu relato. Os racistas não perdem tempo e logo acusam a vítima de se aproveitar da situação, de estar se vitimizando e adoram o termo “mi-mi-mi”.

Isto também ocorre muitas vezes em casos de estupro ao tentarem jogar a culpa na vítima por causa da roupa que estava vestindo, ao invés de culpar e punir o real agressor. É preciso mudar certos conceitos da nossa cultura, porque está errado, sempre esteve errado.

Só existem dois lados neste caso na França: ficamos com o Neymar e apoiamos as vítimas ou escolhemos o lado dos racistas e agressores. Estamos esperando as investigações serem finalizadas para que este caso não passe batido, como diversos outros.

O Brasil é um país que sempre tentou negar o racismo, sempre se negou a debater sobre as questões raciais, mas neste ano, com todos os acontecimentos mundiais, o povo brasileiro parece ter despertado para os seus problemas internos.

O racismo estrutural é o causador da maioria dos outros problemas que o Brasil enfrenta, uma vez que este país não foi pensado e planejado para integrar a população negra.

Não éramos considerados nem seres humanos. A humanização veio somente após o fim da escravidão, em 1888, mas colocando a população negra como cidadãos de segunda classe, incapazes de produzir e colaborar intelectualmente.

O negro sempre foi explorado e a sua capacidade de produzir só foi reconhecida através da sua força e habilidade na construção civil, no trabalho doméstico ou no esporte. Mas não é comum reconhecer o intelecto do cidadão negro.

É bom lembrar e ressaltar os que conseguiram derrubar estas barreiras, como os escritores Machado de Assis e Lima Barreto, o poeta Cruz e Sousa e os abolicionistas André Rebouças, José do Patrocínio e Luiz Gama. Também quero destacar Abdias do Nascimento (escritor, poeta, dramaturgo e artista plástico), Milton Santos (geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor) e Carolina de Jesus (escritora).

Esta supressão proposital colocou a população negra em um pessimismo racial, nos condicionando a acreditar que realmente éramos cidadãos de segunda classe, sem referências e sem exemplos a seguir.

* Com colaboração de Augusto Zaupa

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