As bolsas terão agora de enfrentar a realidade

A tristeza e o sofrimento humano que esta pandemia causa em todos nós são inegáveis. E, apesar de pensar em dinheiro, no meio de mortos, criar uma sensação estranha, a verdade é que o actual momento dos mercados financeiros é dos mais desafiantes que qualquer investidor alguma vez teve pela frente.

Por isso, vou tentar neste artigo deixar a minha visão para os próximos tempos nos mercados, correndo o risco de estar errado (algo que está sempre presente em qualquer análise) especialmente por estarmos a viver uma crise de saúde pública única e, parafraseando Mário Centeno, estando a “jogar um jogo sem conhecermos as regras”.

Depois de os mercados começarem a implodir, já a crise na Ásia era bem profunda, o PSI-20 perdeu cerca de 33% num mês, tendo recuperado cerca de 19% nas quatro semanas seguintes. Já o S&P, depois de ter afundado 33%, iniciou uma fantástica recuperação, subindo cerca de 27% desde os mínimos, recuperando metade do terreno perdido, um nível sempre importante nestes ressaltos.

O fundo que os mercados fizeram em meados de Março coincidiu com o medo praticamente no seu máximo nos Estados Unidos, quando grande parte da população já estava em casa. Foi um ressalto que, nessa altura, aqui consegui antever mas cuja dimensão ultrapassou claramente as minhas expectativas. O mercado começou a ficar embalado pelas notícias de Itália e Espanha a atingirem o pico, de Nova Iorque também a passar por ele e de alguns países europeus começarem a abrir as suas economias. Além disso, a injecção de dinheiro da Fed no mercado é de uma dimensão sem precedentes e muitos investidores seguem a velha máxima “don’t fight the Fed”. Quase dá a sensação de que este pesadelo está quase a terminar.

No entanto, com o anúncio no final da semana passada do plano de abertura da economia norte-americana, o que levou a mais uma sessão de subidas, acredito que os mercados irão agora voltar à vida, à dura realidade de um mundo que tão cedo não será como dantes. Que país no mundo vive hoje de uma forma normal, com os níveis de consumo e convivência social que antes? Nenhum, mesmo os que cedo combateram a epidemia, ainda ela não era pandemia. A abertura será lenta e o distanciamento social, infelizmente, estará para durar, com todos os reflexos económicos que isso terá. E creio que as próximas semanas nos mercados irão reflectir isso mesmo.

Houve uma entrevista muito interessante ao líder dos Jogos Olímpicos que passou despercebida à generalidade da imprensa. Afirmou que não podia garantir que iria haver JO de Tóquio. O jornalista ripostou: “Estamos a falar de 2021, não de 2020”, ao que ele reforçou: “Sim, mas nem eu nem ninguém pode garantir que os JO se vão realizar. Só se houver uma vacina antes disponível é que podemos garantir isso.” A vacina não surgirá antes de Março e não é certo que as primeiras a serem testadas sejam as que venham a ter sucesso, além do tempo que levará a produção e distribuição da mesma. Isto apenas diz do grau de incerteza que a economia e os mercados estão a enfrentar.

Algo que claramente os mercados não estão a descontar é a probabilidade de um segundo “shutdown”. Se esta abertura da economia correr mal e os países voltarem a ter de se fechar, isso será penoso para a economia e parece-me evidente que os mercados não estão a descontar essa possibilidade nas suas cotações, o que levanta aqui um risco acrescido para quem está no mercado.

Bem sei que os mercados, mais do que os lucros de 2020, já estão com os olhos postos em 2021. Mas a recuperação em V parece-me extremamente difícil e o desemprego e a perda de rendimentos, que irá ocorrer nos próximos meses, terão consequências no futuro. É verdade que a injecção de dinheiro brutal, que governos e bancos centrais de todo o mundo irão fazer, ajudará muito a economia a recuperar, mas achar que se sai desta crise como um rato sai de um buraco é ser demasiado optimista para mim.

É verdade que, como em todas as crises, alguns sectores de actividade se destacam e contrariam a tendência. Não me surpreende, por exemplo, que o Nasdaq tenha sido o índice norte-americano que mais recuperou da queda. Além da valorização óbvia de acções como a Netflix que estabeleceu máximos históricos ou a Zoom (mesmo depois da queda devido às falhas de segurança), é possível que esta crise faça muitos responsáveis das empresas perceber que muitos hábitos de trabalho podem ser alterados com a ajuda da tecnologia. Por isso, é normal que as empresas do sector estejam a ter um comportamento interessante. Mas deixem-me dar o exemplo do Facebook. Obviamente, é uma empresa tecnológica e cujo tráfego neste período de confinamento tem sido uma verdadeira loucura. Mas com a quebra de receitas das empresas, vivendo a rede social da publicidade, é evidente que as suas receitas sofrerão também com isso.

Agora que voltei a ficar pessimista em relação aos mercados mundiais, é importante dizer o que me poderá fazer mudar de posição nas próximas semanas – o aparecimento de um antiviral. Enquanto o aparecimento de uma vacina nos próximos 12 meses é uma impossibilidade, no caso de um antiviral não é uma hipótese que possamos colocar de lado, sobretudo numa era em que os cientistas do mundo inteiro estão unidos contra o vírus.

Por agora, torno-me pessimista em relação às próximas semanas nos mercados. Estive optimista no pico do medo e agora pessimista quando a esperança do retornar à vida “normal” se concretiza. Nunca desejei tanto estar errado porque, se os mercados continuarem a subir, isso será sinal de que a economia não sofrerá muito com esta crise. Infelizmente, acredito que os mercados irão agora acordar para a realidade de uma nova normalidade que tem tudo menos normal e na qual a recuperação em V é mais um sonho do que uma realidade. Se a recuperação for com a primeira letra do meu nome já ficaria contente.

(comente aqui o artigo de Ulisses Pereira)

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