As Causas. Erros de primavera, acertos de verão?

Covid-19: os erros estratégicos da DGS após a Páscoa

Na passada semana anunciei que a Covid 19 seria o tema principal de hoje. E a evolução da semana mais justificou a minha opção.

Vou apresentar e comentar alguns mapas e gráficos que não são em regra revelados. Mas antes quero deixar claros alguns aspetos e depois tirar algumas conclusões.

Recordo que desde 7 de abril defendi uma estratégia alternativa à que foi seguida pelo Governo. Descobri, depois desse dia, que não estava sozinho e que especialistas de várias áreas pensavam o mesmo. Fui sendo ajudado com informações e diálogo por muitos deles. Na pessoa de quem me contactou logo nesse mesmo dia – o Eng.º Pedro Coimbra – quero agradecer a todos os outros, em especial a epidemiologistas, médicos, cientistas, economistas, psicólogos e matemáticos que generosa e anonimamente me têm ajudado.

Até março, o Ministério da Saúde desvalorizou os riscos pandémicos, por isso nada tinha preparado nem antecipado em relação ao coronavírus ou a qualquer possível pandemia. Além disso não comprou equipamentos de proteção e não definiu regras nem estratégia.

Também por esse motivo o confinamento inicial foi uma boa ideia e evitou males maiores.

Mas no início de abril já era evidente que a pandemia só era um risco sério para quem tivesse co-morbilidades relevantes. Para quem as não tivesse era praticamente inexistente o risco de morte ou doença grave.

Os gráficos e mapas mais adiante confirmam agora tudo o que eu dizia há 5 meses.

A boa estratégia teria sido:

(i) manter a proteção e confinamento dos grupos de risco, com especial incidência nos 2500 lares (onde vivem 100 000 idosos e de onde morreram 40% do total nacional).

(ii) lutar contra o pânico de forma clara,

(iii) libertar do confinamento os menores de 60 anos sem co-morbilidades graves a seguir ao domingo de Páscoa, ou seja, a partir de 13 de abril,

(iv) abrir as escolas presenciais para todo o ensino (incluindo o básico) no início do mês de maio.

O resultado da má estratégia do Ministério da Saúde é agora patente para todos: vamos fazer no outono o que deveria ter sido feito na primavera. E o facto de termos seguido a linha dominante na Europa não altera o facto: todos esses estão com o mesmo problema, como ainda hoje se pode ver em Madrid.

As falhas e ocultação de informação pela DGS

Mas há um problema real que tem dificultado o controlo dos cidadãos das ações da DGS (que o sistema democrático exige) e também impede que as estratégias governamentais não sejam feitas às escuras e com base no “achismo” nacional: a ocultação ou inexistência de informação essencial que a DGS devia divulgar.

Estes são os exemplos mais graves:

a) Distribuição de hospitalizados em enfermaria e em UCI por grupos de idade;

b) Entradas e saídas semanais em enfermarias e UCI;

c) Número de co-morbilidades por cada morte;

d) Se o morto com menos de 20 anos, os 29 mortos entre 20 e 49 anos, e os 59 entre 50 e 59 anos, tinham ou não (e quantas) co-morbilidades anteriores;

e) Quais as idades e co-morbilidades tinham os mortos posteriores a 1 de agosto ou desde outra que se deseje ventilar.

A gravidade desta falha é óbvia e reforçada pela confissão de Graça Feitas, em início de setembro, de que há “milhões de dados” que a DGS não consegue tratar. E ela já dissera – burocraticamente – que estão ainda a tratar os dados de 2019 e só depois disso começarão a olhar para 2020!

No entanto, nos EUA os dados são tratados de imediato e por isso o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) tem dados até 16 de setembro, que revelam que apenas 6% dos 182.095 mortos com Covid 19 não tinham antes outras co-morbilidades (em Itália são apenas 3,9%), o que valida a estratégia alternativa que propus de proteger muito e só os grupos de risco a partir de fins da Abril.

Ou seja, sem dados, opto aqui por aplicar a taxa média de 5% a Portugal para casos de COVID sem co-morbilidades; e concluo assim que só 95 pessoas terão morrido apenas de Covid até 18 de setembro.

Os gráficos e mapas falam

O primeiro é a COMPARAÇÃO DE MORTOS ENTRE 2019 E 2020 (dados da DGS).

DR

Como se vê, até 31 de julho de 2020 apenas 2,4% do total dos mortos em Portugal morreram também com covid-19 (foram 1722 pessoas).

Lembremos que só 5% dos que morreram com Covid 19 não tinham prévias co-morbilidades; ou seja, em 7 meses foram apenas 86 os mortos nessa situação.

Por isso, a conclusão é que sendo apenas 86 dos 70 000 mortos de 2020, na realidade apenas 1 em cada 1000 mortos de 2020 tem a COVID 19 como única causa de morte (por inexistência de prévias co-morbilidades), o que devia ter consequências na estratégia e não teve.

Passemos agora aos INDICADORES COMPARADOS ENTRE 14 DE ABRIL E 19 DE SETEMBRO que a DGS torna acessíveis. E a data de 14 de abril foi a escolhida por ser logo a seguir ao domingo de Páscoa.

Algumas conclusões são evidentes:

a) Mortos:

DR

Acima de 70 anos não houve variação percentual em 5 meses (com essa idade morreram 87% do total dos mortos com COVID 19); e abaixo de 50 anos houve uma pequena subida percentual (de 1,1% do total para 1,5%: eram 7 pessoas em abril e passaram a 30 agora; e destes, estatisticamente, apenas 1 a 2 não tinham outras co-morbilidades;

b) Infetados:

DR

Houve uma forte redução da percentagem dos que têm mais de 70 anos (passou de 24% para 17% do total dos infetados; ou seja, uma redução de um terço);

c) Internados em enfermaria e em UCI:

DR

Houve uma forte redução de 59% do total nas enfermarias e de 69% em UCI.

Ou seja, em 5 meses aumentaram os infetados e reduzem todos os outros indicadores.

Vamos agora à EVOLUÇÃO COMPARADA DE INTERNADOS EM ENFERMARIA E NOS UCI (dados retirados da DGS)

DR

Este gráfico vai ajudar-nos a tirar duas conclusões:

a) A curva dos internados em enfermaria e dos que têm de ir para UCI evolui de modo paralelo, mas com redução maior nas UCI, o que nos permite concluir que a gravidade social da doença tem diminuído ao longo dos meses;

b) Mais importante é que no dia 14 de abril começaram a cair muito acentuadamente estes dois indicadores, o que confirma que (i) o confinamento foi uma excelente ideia, mas (ii) que a partir daí a queda foi constante apesar de todas as vicissitudes que vivemos desde o desconfinamento parcial a partir de 1 de maio.

E finalmente a EVOLUÇÃO COMPARADA DE ÓBITOS COM OS CASOS CONFIRMADOS DE INFEÇÃO (dados da DGS).

DR

Fica graficamente revelado que:

a) a curva de óbitos segue com algum atraso a curva da evolução de infetados;

b) A semana de 13 de abril marcou a queda abrupta dos infetados confirmados e o início da queda dos óbitos;

c) E sobretudo o gráfico revela, a partir do início do desconfinamento total (1 de junho) e ainda mais a partir de 24 de agosto, o enorme distanciamento na evolução das curvas, o que sugere que se alterou o paradigma do COVID 19 (como até a DGS ontem reconheceu) com o aumento exponencial de infetados assintomáticos e mais jovens, os que não são grupos de risco.

Conclusões sobre estratégia de combate ao Covid-19

A aparente conclusão é o sucesso fantástico da estratégia do Ministério da Saúde.

Como afirmei há meses, a estratégia seria excelente … se a vacinação pudesse ter começado em agosto passado. Mas era óbvio que isso não iria ocorrer.

O que estes dados revelam é, pelo contrário, a estratégia errada da DGS após 13 de abril. O que deveria ter sido feito era:

a) Ter aplicado de imediato – e não apenas agora – todos os meios na proteção dos maiores de 70 anos (em especial nos 2500 lares), usando para isso recursos que foram espalhados para missões menos relevantes.

b) Manter para todos as regras de distanciamento e o uso obrigatório de máscaras, como foi tentado fazer sem grande êxito, devido ao excesso de confinamento que destruiu o consenso social;

c) Proteger menos os menores de 60 anos sem co-morbilidades.

Com isso teríamos na primavera/verão o que está a começar a ocorrer no outono/inverno.

E assim o resultado seria:

a) Evitar muitas mortes de idosos;

b) Redução muito maior dos efeitos de saúde pública em outras doenças;

c) Evitar a fadiga do confinamento;

d) Diminuir os efeitos sociais (sobretudo para os mais desfavorecidos) da crise económica;

e) Obter a adesão social e não a ilusão desculpabilizadora de que tudo estava controlado;

A prova irrefutável disto tudo é que o Primeiro-Ministro defende agora em piores condições o que eu (quase isolado no espaço público) defendia desde meados de abril.

Mas, devido às injeções diárias de pânico, uma sondagem há dias refere que 47% dos portugueses e sobretudo os mais jovens querem um novo confinamento. São sobretudo “o caso dos habitantes das regiões Norte e Centro (52%), das classes médias (51%), da faixa etária dos 18 aos 34 anos (65%) e dos portugueses que optaram pela abstenção nas eleições (53%)”.

Louve-se também por isso a enorme coragem do Primeiro-Ministro em afirmar de modo perentório que não haverá novo confinamento em circunstância alguma.

Mas espera-se o reconhecimento de que a DGS e a Ministra erraram a partir de meados de abril e exige-se a mudança da estratégia que Costa defende, mas sem hesitações da Saúde. Para o justificar basta usarem os gráficos e mapas que agora divulguei…

O CANTINHO DOS POPULISTAS

Sempre que vier a propósito, aqui se falará de Ana Gomes e de André Ventura. E esta semana justifica-se.

Ventura teve um grande fracasso da sua liderança. Um populista não precisa nunca de votar três vezes para que os congressos o plebiscitem em delírio (menos dos 99% que teve na eleição pessoal pelos militantes é inaceitável…) votando tudo o que ele quer.

A campanha de Ventura começa mal e não revela a força sem a qual os populistas se tornam ridículos… como se demonstra na cena pungente do ajoelhar no palco.

Por sua vez, Ana Gomes fracassou na entrevista com Ricardo Araújo Pereira: ficou claro que lia as respostas às perguntas que como os outros entrevistados conhecia, perdeu-se (e o mesmo no seu programa) no discurso (cansaço?), e quando saía para fora de pé (deixando os temas populistas) falhou. E começou a não dizer a verdade sobre Marcelo Rebelo de Sousa, o que não é bom.

Realmente não é verdade que quando ele fez o anúncio da candidatura (em outubro de 2015) tenha continuado o seu programa na TVI, que deixou de imediato. Ana Gomes foi incorreta com o Presidente.

Ora, Ana Gomes fez o anúncio de candidatura no dia 10 de setembro. Como disse aqui do apoio de Costa a Vieira, o que a candidata está a fazer não é ilegal, não ofende nenhum código de conduta, mas é um grave erro político, sobretudo depois de ter dito que ia fazer o mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa.

Marisa Matias e João Ferreira provavelmente vão lembrar isso mais cedo ou mais tarde…

ELOGIO

O elogio é devido à limpeza com o Presidente da República desmontou a complicação do apoio de Costa a Luis Filipe Vieira.

É verdade que a solução de Vieira (“despedir” os políticos sem sequer lhes pedir desculpa publicamente pelos incómodos) define o personagem. Mas disso não tem culpa Marcelo.

LER É O MELHOR REMÉDIO

Ricardo Reis – tenho-o dito – escreve o texto de leitura obrigatória da página 3 do Expresso Economia. Este sábado não foi diferente. Sobre o famoso Plano Costa Silva (de que Ricardo Araújo fez carne para bolonhesa no domingo apenas com citações do autor…), escreveu “Perguntas em vez de Planos” e faz as perguntas que temos de (nos) fazer:

(a) “o objetivo é o crescimento económico de longo prazo ou antes o combate à recessão provocada pela covid-19?

(b) o plano é nacional ou europeu?

(c) a prioridade nos gastos é a velocidade ou a qualidade?

(d) no curto prazo querem-se proteger empregos existentes ou promover novas empresas e sectores?

(e) grandes planos de despesa como este criam sempre uma tensão entre deixar o mercado funcionar ou impor prioridades públicas de cima para baixo. Eles vêm também com uma grande falta de humildade”.

Leiam que não se arrependerão. E, já agora, informo que para a semana o tema principal será propor uma estratégia alternativa de redução de impostos à do Chega e Iniciativa Liberal e abordar o Programa de Recuperação e Resiliência onde o Governo quer torrar o dinheiro recebido a fundo perdido da Europa.

A PERGUNTA SEM RESPOSTA

E as perguntas sem resposta desta semana são as de Ricardo Reis, pois eu não saberia fazer melhor.

A LOUCURA MANSA

O que se sabe da acusação na Operação Lex enche de espanto quem como eu estuda Direito há mais de 50 anos, foi advogado durante 44 anos, membro do Conselho Superior da Magistratura 4 anos, bastonário dos Advogados 3 anos e 2 anos Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados.

A ser verdade, ainda que fosse apenas uma pequena parte dos factos, trata-se de uma das mais graves violações do Estado de Direito de que me lembro (e lembro-me ainda da Ditadura e do Gonçalvismo) por afetar os pilares que o sustentam: a honestidade, independência e imparcialidade dos magistrados. Para quase tudo há remédio, mas para isso não.

Mas a loucura não é essa. No seu programa de domingo, Ana Gomes (que aspira a ser a “Suprema Magistrada da Nação”) afirmou que o sistema judicial “está inquinado” por corrupção e que isso não acontece ao nível dos tribunais de 1ª instância (pressupondo-se que o está ao nível dos tribunais superiores). Gravíssima a generalização, realmente. Ao nível do pior populismo de André Ventura.

Leia Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *