Campanella e sua grande dama do cinema, a mítica Graciela Borges

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Luiz Carlos Merten

14 de maio de 2019 | 22h29

Confesso que estou um pouco deprimido. Notícias da nova cirurgia, o início de Cannes e a frustração por não estar lá, participando daquela agitação gostosa. Desde 1992, são 27 anos e, com exceção de dois, por decisões arbitrárias de diferentes editores, sobram 25 anos, 25 edições cobrindo aquele festival que é a miríade dos cinéfilos. O que me resta agora é tentar ir a Veneza, em agosto/setembro, quem sabe? Salvou hoje meu dia a cabine de A Grande Dama do Cinema, de Juan José Campanella. Trata-se de um remake de Los Muchachos de Antes no Usaban Arsénico, de José A. Martinez Suárez, que foi o representante da Argentina no Oscar, em 1976. Conta a história de uma diva do cinema que vive reclusa num casarão em ruínas, com o marido que ficou paralítico, seu ex-diretor e o ex-roteirista. Como o inferno são os outros, esse quarteto vive às turras, infligindo-se agressões e humilhações diárias. Surge um casal de golpistas que quer se aproveitar do narcisismo da ‘estrela’, mas seus homens percebem o movimento e, quando tudo parece perdido, como mestres do artifício cinematográfico, conseguem virar o jogo. A diva remete, obviamente, a Norma Desmond/Gloria Swanson, de Sunset Boulevard, a obra-prima noir de Billy Wilder, com elementos de Sleuth, Jogo Mortal, de Joseph L. Mankiewicz, com o jogo de gato e rato entre Laurence Olivier e Michael Caine, mas, no limite, é fascinante ver como Campanella, utilizando-se de um montón de referências, parece estar refazendo, exacerbado por mais personagens e subtramas, seu clássico vencedor do Oscar, O Segredo dos Seus Olhos. Fiz uma pesquisa tentando encontrar uma aspa do diretor para colocar no texto do Estado e descobri que o projeto é antigo, tem mais de 20 anos, e Campanella chegou a pensar em fazê-lo com Lauren Bacall, nos EUA. Ainda bem que ele o concretizou na Argentina, e com Graciela Borges, que começou jovem e bela com Leopoldo Torre-Nilsson – Piel de Verano – e percorreu um arco de grandes filmes e papeis até a matriarca decadente de La Ciénaga, de Lucrécia Martel. Adorei como realidade e ficção se fundem na protagonista, que é uma tal de Mara Ordaz, sem deixar de ser La Borges, a grande Graciela. O filme é uma celebração do artifício. A arte de interpretar, de fingir, mentir, enganar. Talvez seja necessária certa memória, como quando Mara/Graciela cita Alfredo (Alcón), o ator fetiche de toda uma fase da carreira de Torre-Nilsson. Talvez o filme tenha algo de utópíco e até reacionário, porque os velhos profissionais terminam fazendo gato e sapato dos jovens arrivistas, que não passam de amadores diante deles. Dando uma de galã barato, Nicolás Francella, o jovem (gigolô?), tenta desculpar-se para Mara dizendo que nada do que está fazendo, e é sórdido, é pessoal. É só um sinal dos tempos. O mundo é competitivo e o importante é não perder. Gostei de A Grande Dama do Cinema, com seu roteiro bem escrito – e cheio de reviravoltas, e de frases lapidares -, mas gostei principalmente do elenco, e de Graciela Borges. Campanella, e o cinema argentino, logram mais um tento.

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