Carlos Fausto: O desafio da nossa geração é fazer com que a covid-19 não seja o sarampo de 1954

por Carlos Fausto, em Nexo

A covid-19 começou como uma doença de ricos, mas se espalhou seguindo a topologia da desigualdade brasileira.

E, nesse quesito, os indígenas se juntam aos mais pobres, entre os quais não apenas se observa um número maior de casos, como também uma porcentagem maior de óbitos.

Meu primo Kanari Kuikuro me telefonou várias vezes no sábado pela manhã.

Eu estava na feira — sábado é o dia em que saio do confinamento para abastecer a casa.

Ao chegar, vi na tela do celular as várias ligações perdidas. Só podiam ser más notícias. E eram. A covid-19 havia, enfim, chegado ao Alto Xingu.

Conversamos por meia hora, sem mais falar sobre a epidemia de sarampo do tempo de seu avô.

Afinal, o nosso tempo é agora; a epidemia é desta geração. Entrei no grupo de WhatsApp das lideranças kuikuro para confirmar a informação.

A voz calma de Mutuá, hoje vereador em Gaúcha do Norte, pedia a todos que aguardassem a confirmação oficial.

Ela veio à tarde, por meio de uma nota técnica do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) do Xingu.

O cacique da aldeia Sapezal e seu filho tinham sido retirados da área apresentando quadro de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Testaram positivo para covid-19 e foram transferidos para Cuiabá.

Há notícias, ainda não confirmadas, de outros casos na fronteira leste do Parque Indígena do Xingu, onde se localiza a aldeia atingida.

O território xinguano abriga, hoje, cerca de 7.000 pessoas de 16 povos diferentes, distribuídos ao longo de 2,6 milhões de hectares, formando um sistema multiétnico e plurilinguístico vibrante, com uma vida social e ritual muito intensa.

Esqueça a imagem da Amazônia como um deserto verde com povos espalhados e isolados!

Pense, ao contrário, em sistemas regionais, ligados em rede, com dezenas de aldeias interligadas, por onde circulam informações, pessoas, objetos e, infelizmente, vírus também.

Essas redes foram rapidamente atingidas pelas epidemias coloniais — os vírus eram levados de pessoa a pessoa por centenas, milhares de quilômetros sertão adentro.

Quando todos estavam morrendo, as pessoas ainda saudáveis procuravam refúgio em outras aldeias, utilizando-se desse sistema reticular. E assim levavam a doença para um número cada vez maior de pessoas. É isso, justamente, o que tememos que venha a acontecer hoje no Xingu. Por isso, é preciso agir com rapidez e diligência.

As epidemias do passado contêm ensinamentos para o presente.

Volto à devastadora epidemia de varíola que varreu o Maranhão e o Pará em 1695, da qual falei em texto anterior.

O padre Bettendorff conta que um navio negreiro chegou a São Luís trazendo “uma pessoa malsã de bexigas”.

O navio foi proibido de ancorar perto da cidade. Porém, a cautela foi logo abandonada em função da avidez dos moradores por mão de obra escrava e dos interesses do capitão da nau que ameaçava processar a cidade por perdas e danos.

O resultado? Mortes sobre mortes, durante meses, com as bexigas se espalhando do Maranhão ao Pará.

Como concluiu argutamente o jesuíta, aquilo “que parecia ser para seu remédio [dos moradores] foi para sua grande ruína”.

Mas, claro, a conta maior foi paga pelos povos indígenas: “Caíram e foram morrendo tantos, que às vezes não havia quem acudisse aos vivos e enterrasse os mortos”.

Rapidez e diligência é tudo o que não tem caracterizado as ações governamentais frente à pandemia.

É preciso admitir: estamos diante do desgoverno. Aqueles que deveriam promover a vida e o bem-estar da população são os próprios promotores da desordem, tal qual o capitão da nau no relato de Bettendorff, que “foi deixando entrar” as pessoas contaminadas, trazendo assim, insidiosamente, a ruína de tanta gente (mas, como se sabe, a ruína nunca é igualmente ruinosa para todos).

A covid-19 entrou no Brasil pelos viajantes a jato. Começou como uma doença de ricos, mas se espalhou seguindo a topologia da desigualdade brasileira.

Afinal, isolamento social é algo relativamente fácil de se fazer em casas monofamiliares, com carro particular, recursos para comprar por delivery e internet de banda larga para home office.

Sem decisivo apoio governamental, isolar-se é um luxo não disponível a boa parte da população de um país em que 1% concentra cerca de 1/3 da renda nacional e 10% concentram mais da metade.

Nesse quadro, o desgoverno não nos ameaça a todos da mesma maneira. E nesse quesito, os indígenas se juntam aos mais pobres, entre os quais não apenas se observa um número maior de casos, como também uma porcentagem maior de óbitos.

A crescente pressão nacional e internacional para evitar um genocídio indígena fez a máquina do governo começar a se mexer, ainda que lentamente.

Até aqui, contudo, a resposta global dos DSEIs deixou a desejar. Houve, inclusive, casos nos quais os próprios agentes sanitários foram vetores de contaminação, tanto nas Casas de Saúde Indígenas nas cidades, como nas próprias áreas indígenas.

E agora, chegam também notícias de que militares poderiam ser os responsáveis pela introdução do vírus na Terra Indígena Parque do Tumucumaque. Esses fatos mostram como o desgoverno no topo atinge o funcionamento na base.

Saúde pública é assunto para médicos. Ninguém jamais imaginou apontar epidemiologistas e infectologistas para o ministério da Defesa.

Desde março, venho atuando com um grupo de pesquisadores e indígenas no monitoramento e prevenção da covid-19 entre os Kuikuro, um dos quatro povos de língua karib que habitam a porção meridional do Parque Indígena do Xingu, com os quais convivo há mais de 20 anos.

Trata-se de um projeto piloto que, esperamos, possa ajudar na implementação de um projeto mais amplo, abraçando todo o Xingu.

O desafio para a nossa geração é fazer com que a covid-19 não seja o sarampo de 1954. E, para isso, precisamos trabalhar todos juntos — órgãos governamentais, associações indígenas locais, instituições de pesquisa e ONGs, contando sempre com o apoio técnico do Projeto Xingu da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que atua na área há 55 anos.

É hora de unir esforços e estabelecer uma governança eficiente para atender a saúde indígena.

Tarde da noite, eu ainda trocava mensagens por WhatsApp com as lideranças kuikuro.

Kauti, agente indígena de saúde, lançou a proposta: “vamos fazer lockdown na aldeia!”

No dia seguinte, enquanto escrevia essas linhas, os discutiam como proibir a visita de parentes e amigos de outras aldeias.

Se isso não é trivial para ninguém, é ainda mais difícil em um contexto indígena, onde estar em relação é a essência da boa vida.

Mas governança é isso: tomar o timão e enfrentar o mar bravio, sem fingir que nada está acontecendo.

Carlos Fausto é professor de antropologia do Museu Nacional, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e global scholar da Universidade de Princeton.

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