Desastre, corrupção, tragédia

Esperem, esperem, pus-me de fora disto, devia dizer “se nos derem”, para me incluir a mim e a si, porque um dos nossos maiores problemas é considerarmos sempre que a “sociedade” é um bando de malfeitores de que nunca fazemos parte.

Pronto, então vamos entrar nisto juntos. Preferimos más notícias a boas. E porquê? Se nos sentarmos a pensar, chegamos lá, mas se preferir um estudo científico, não faltam, sendo que a conclusão é aproximadamente a mesma: os nossos cérebros, objetivamente da Idade da Pedra, estão formatados para identificar situações de perigo, para evitar que sejamos apanhados de surpresa e apunhalados pelas costas. Os psicólogos chamam a isto um “negative bias” (viés negativo), e explica porque é que as cobaias de uma experiência feita pela McGill University (Canadá), quando vaguearem por um site de informação, leram predominantemente as notícias negativas.

Desastres, corrupção, tragédias, fraudes, atraem-nos como mel, e se lá vierem os nomes dos “alegados” criminosos, tanto melhor, não vão cruzar-se connosco nalguma esquina. Um sistema de eye tracking que permite perceber para onde olhamos de facto, deixou claro que somos atraídos pelas palavras mais negras – cancro, bomba, guerra, ganham a bebé, entretenimento ou sorriso. 

Mas os investigadores Marc Trussller e Stuart Soroka, da McGill, somaram a esta, uma outra explicação mais generosa. Sugerem que vemos o mundo mais cor-de-rosa do que ele realmente é, e como nos consideramos boas pessoas e acreditamos que as histórias acabam sempre bem, ficamos genuinamente chocados quando as notícias contradizem esta nossa crença. Pois. Talvez seja assim, embora me pareça mais provável que nos saiba bem sentirmo-nos um poço de virtudes, face aos pecados dos outros, e mais sortudos, quando confrontados com as suas tragédias.

Uma vez tomada consciência destas nossas tendências, podemos optar por nos desculparmos com este condicionalismo ancestral, continuando a atirar pedras aos mensageiros das más notícias – depois de as termos lido, evidentemente! -, ou policiarmo-nos a nós mesmos, esforçando-nos por aprofundar os assuntos, formando opiniões menos populistas, negativas e demagógicas. Contrapondo a tendência, que se agrava com a idade, de nos remetermos a uma nostalgia dos tempos que, ainda por cima, nunca foram.

Por exemplo, quando se grita por aí que o mundo está cada vez pior, vale a pena espreitar uma reportagem da revista Time, com gráficos muito simples, sobre as  20 formas em que o mundo se tornou um lugar melhor em 2019 (https://time.com/5754155/global-advances-2019/). Sim, imagino que o seu cérebro já está a boicotar esta boa notícia, inventando mil e uma teorias da conspiração para não acreditar nela, mas resista. Pela minha parte, fiquei mesmo feliz, por ter sido o ano em que mais crianças no mundo completaram a escola primária desde que há registos. Totalizam 89,95%, uma percentagem extraordinária, mas se não aguentar a boa nova, pode sempre consolar-se com os 10,05% que não o fizeram, e discorrer sobre a má qualidade do ensino que receberam. Mas vá lá, escolha a primeira opção e bom ano. 

Nota: escolhi o título mais negativo possível para vos levar a ler.

 Jornalista

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