Diário da Peste. Guilhotina, Corda e Fogo

Diário da Peste,

31 de Maio

Gordon Matta-Clark artista que cortava a meio uma casa.

Meia casa para cada lado.

A divisão em dois esclarece.

Negros e brancos.

Infectados/não infectados.

Tornar claro não é resolver mas é tornar claro.

Nada se resolve na penumbra, a não ser assuntos imediatos do desejo.

Ainda Godard.

Paul observa o corpo de Camille.

Ela pergunta se ele gosta dos pés dela, dos tornozelos, pernas, rabo, seios, ombros e de todo o rosto – boca, olhos, nariz, etc. Paul gosta de tudo. Camille diz:

“- Então, tu amas-me inteira! – Sim. Eu amo-te inteira, delicadamente, tragicamente. – Eu também, Paul.”

Inteira, delicadamente, tragicamente.

25 cidades americanas com recolher obrigatório.

Morreu Christo, o artista plástico que embrulhou o Reichstag.

Trump refugiou-se no bunker da Casa Branca.

Manifestações com pedras e fogo.

Cápsula da SpaceX acoplou e astronautas já estão na Estação Espacial Internacional.

Chamam-se Bob e Doug, os astronautas.

Primeiro voo espacial americano tripulado desde 2011.

Depois de 1849, a ameaça das tropas Prussianas.

O jovem Richard Wagner perto de Bakunine, anarquista central do séc. XIX.

Preparam a revolução.

Amigos.

Wagner era pragmático.

Diz Safranski: levou umas granadas de mão para o projecto anarquista.

Wagner a transportar granadas e outros explosivos.

Wittgenstein numa fase da vida levava no bolso cubos de açúcar para dar aos cavalos.

É preciso fazer uma vistoria aos bolsos dos artistas e filósofos.

O que levas no bolso? Doces ou explosivos?

Um cubo de açúcar que expluda, eis a carga certa.

Avançamos para ontem e notícias de hoje 1-2-3.

A mais antiga versão da Bíblia encomendada pelo imperador Constantino está disponível na Internet.

Paris reabre esplanadas a 2 de Junho e ruas podem vir a ser encerradas para obter mais espaço.

Diz a secretária do místico Osho: “Há guilhotinas para todas as coroas. sem coroa não se pode ter guilhotina.

Vou usar sempre coroa enquanto não vier a guilhotina.

Há guilhotina quando há força.”

Bakunine propôs a Wagner a composição com um trio em que o tenor cantava repetidamente: “Cortem-lhe a cabeça”, o soprano: “enforquem-no” e o baixo: “fogo! Fogo.”

Wagner não atendeu a esta encomenda de Bakunine.

Estava a pensar outras coisas.

Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Guilhotina, Corda e Fogo.

Carta de Keats: “querida Brownie: tivesse ela sido minha quando eu tinha saúde, nunca eu teria adoecido”.

A tese cínica: os amados nunca adoecem.

Só adoeces, se não és amado.

Uma frase injusta em qualquer ano. Em 2020 também.

Notícias de hoje 1-2.

Fogo no ecrã.

Cordas no pescoço ou à volta do tronco.

Guilhotina com o joelho na voz que pede para respirar.

Graffitis com o rosto de George Floyd.

O neto ou filho de Martin Luther King a falar na CNN.

Alguém tatua junto ao pescoço: não consigo respirar.

Na Lombardia, doente, em Março. Carlo não conseguia respirar.

Geovanni também não.

Claudia também não.

Tudo se repete ou se vira de cabeça para baixo.

Três é o número base.

Contam-me. Um vendedor de coco no Rio de Janeiro:

“Esse mundo está perdido…tem razão.

Já passámos um bilião de vezes pelo mesmo sol, acho que estamos a andar em círculos”.

Estamos mesmo, meu caro, perdidos à volta do mesmo sol.

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Índice

O ecrã está cheio de fogo

O porquê continua a ser o santo Graal de cada coisa

Os seres humanos recomeçaram a andar

O progresso ainda fica em casa para não se molhar

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