Diário da Peste. Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo

Diário da Peste,

15 de Junho

O instinto fascista vem de uma necessidade paranóica de arrumação do espaço e das coisas.

Diante do aumento da confusão e da desordem, esse instinto ganha ânsia e excitação.

Índia, ontem: carruagens de comboio convertidas em hospitais improvisados.

É preciso travar o movimento. Da máquina feita para sair do sítio, fazer hospitalidade e cama parada.

O arcebispo de Valência criticou as vacinas que estão a ser “desenvolvidas com células de fetos abortados”.

“É trabalho do diabo”, disse.

Goethe e o seu Fausto.

Ciência de novo como aquilo quem vem com os sapatos pesados do diabo.

Ou com os leves sapatos de quem salva.

“Levai-me de novo para casa. Para que há de um jardineiro viajar?”. Goethe.

A frase que todos na cabeça ouvimos nas primeiras semanas da pandemia. Para que há de um jardineiro viajar?

Ficámos todos jardineiros mesmo que de jardim nenhum.

Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo.

Este hesitar constante entre o jardim e o aeroporto.

Um jardineiro que vê aviões da sua janela.

E de viagem para ele basta viajar o olho pela janela.

Índia, outros tempos: um intocável só circulava fora do seu bairro “agitando as matracas a fim de que os homens de casta tivessem tempo de se afastar”.

Dele e do “vento que o envolveu momentos antes”.

Assinalar a sua própria presença com instrumentos e ruído.

A importância do vento nestes dias em que a Europa está cautelosa, mas com a cabeça ao ar livre.

Semanas onde em cada ponto do mundo a normalidade sofre abalos ou pelo menos modificações sucessivas.

Instruções semanais para humanos.

Instruções para humanos semanais.

O mito de algumas tribos: os ventos que vinham de longe entravam na inspiração e os ventos que iam para longe eram feitos do ar humano saído da expiração.

Inspiras o ar que vem do outro lado do mundo.

Vento e respiração, o mesmo material. Circulação entre a terra e os pulmões.

No Peru a quarentena “é controlada à chicotada por brigadas de camponeses”.

São as “rondas campesinas”, eleitas pelo povo.

Uma mulher do grupo do místico Osho. Documentário.

Diz que ao colocar-se numa certa posição de meditação conseguia acertar com uma bala em qualquer alvo.

Tudo uma questão de respiração, disse. Yoga e pontaria.

Aprender gestos tranquilos para acertar uma bala na cabeça de outro sujeito.

“Cá, receio que o pior esteja para a frente: na saúde e na economia. Entretanto, há também alegria.” Grécia.

Sobre o rapaz que morreu ontem afogado perto de Atenas. Diz a minha amiga: era estudante da Escola de Dança.

Imaginar os terríveis movimentos num bailarino que se afoga.

Os bailarinos não se deviam afogar.

Uma bruta indelicadeza da água em relação a quem domina o solo com piruetas e saltos.

Kierkegaard e o “deus que exige demais”.

Temos de ser hábeis sobre a terra, hábeis no ar, hábeis debaixo da água e hábeis diante do fogo.

Um deus que exige demais dos humanos.

Em Atenas e no resto do mundo.

“O presidente dos EUA marcou para sábado um comício em Tulsa, numa arena com capacidade para 20 mil pessoas.”

Memória, documento e instinto – este diário.

Registar em directo tempos híbridos.

Parte final, estou exausto. Decidi terminar no dia 20, noventa dias.

Este sábado.

No diário de Pavese: aquele que não aprendeu, sucumbe.

E digo: aquele que sucumbe não pode continuar a aprender.

Precisamos de outra vida, claro. E ela virá.

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