Diário da Peste. O leve vírus desloca-se como em tempos o mamute pesado

Diário da Peste,

19 de Maio

Os carros parados há muito.

Alguém ouviu um som estranho no motor, antes de arrancar.

Ao fim de mês e meio.

O motor não costuma fazer ruído quando o carro está parado.

Abriu a tampa da máquina e o ruído ali estava.

Não de motor, de rato.

Muitos ratinhos pacatos apoderados do motor como ninho metálico e frio.

Tom Waits, Chocolate Jesus.

A primeira música que o motor escuta em semanas.

“Bem, eu não vou à igreja ao domingo

Não me ponho em joelhos para rezar

Não memorizo os livros da Bíblia.”

Coisa ingénua e parada, nada perigosa: o motor, quando abandonado.

Brasil mais de mil mortos nas últimas 24 horas.

Novos casos no Chile disparam 54,5%.

México: três vezes mais mortes do que as oficiais.

“Nicarágua anuncia aumento repentino de contágios”.

O leve vírus desloca-se como em tempos o mamute pesado.

Está agora a pôr as más e pesadas patas na América do Sul e do Centro.

No México, luz verde para certos bairros e luz vermelha para as cidades da “desesperenza”, como diz Paula A.

A cidade do México está vermelha em vários pontos.

O vermelho clássico associado ao sangue, o azul ao ar.

As cores primárias trocadas.

O vermelho assinala agora a falta de ar, a epidemia; o azul outros crimes.

“Tenho a minha própria maneira especial

Sei que Jesus me ama

Talvez até um pouco mais.”

Bierce, sarcasmo: “a guerra é o caminho que Deus elegeu para nos ensinar geografia”.

As pandemias também.

A deslocação do animal invisível traça itinerário e novo mapa.

Pelo número de mortos em cada país vês onde anda o bicho que não se vê.

A voz de Tom Waits bruta e concentrada nos músculos do pescoço;

entre o grito e o sussurro, uma média qualquer que para lá existe.

“Eu ajoelho-me todos os Domingos

Na confeitaria Zerelda Lee’s

Pois tenho de ter o meu Jesus de chocolate

Ele faz-me sentir bem por dentro.”

Quando o azul significa crime nada no solo pode estar tranquilo.

Estudo dos monumentais engarrafamentos na cidade do México.

Antes da epidemia.

Diz Speranza: o carro transformou-se “num veículo quase sedentário”.

O grande pesadelo da cidade diz: o “movimento estático”.

Gabriel Orozco, artista mexicano: “a única maneira de tornar suportável um engarrafamento é supor que que o carro não é meio de transporte, mas uma vivenda.”

Vivenda para homens, vivenda para ratos.

No México demorei uma vez quatro horas de carro para percorrer três quilómetros.

Uma vivenda que se move aos poucos, com quatro janelas.

Mas as janelas dão para outras vivendas com tubos de escape e fumo.

Imagino casas paradas – mas para estarem paradas precisam de motor.

Uma gasolina estranha que mantém imóvel o que é imóvel.

E da cauda da casa sai fumo por tubos de escape.

Gasolina que acalma.

Eduardo Kac fez um coelho vivo brilhar no escuro.

Introduziu a seguinte substância: a proteína fluorescente, Aequorea victoria.

Luz fluorescente inócua para o pobre bicho luminoso.

Bicho doméstico dos filhos de Eduardo Kac.

Para os humanos e para as máquinas humanas, ficar quieto é um esforço.

Fica flácido o corpo, cheio de ratos o motor do carro.

Contam-se gestos incríveis, outros terríveis.

Vou estudar mais os vaga-lumes.

Homem cospe em mulher para a infectar; avó abraça finalmente a neta e chora.

É preciso que o humano brilhe no escuro.

Mas sem tecnologia não está fácil, não está fácil, não está fácil.

—–

Índice

Diário da Peste. Toca-me e ficarás curado. Toca-me e ficarás doente

Diário da Peste. Quanto tempo fica o mal numa superfície?

Diário da Peste. Pintar de branco a acelerada superfície de um dia

Diário da Peste. Manter a alegria acima de um certo limite

Leia Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *