Diário da Peste. O nosso ensaio foi cancelado

Diário da Peste,

14 de Junho

Mensagem da minha amiga grega, domingo:

“Primeira excursão fora de Atenas com o meu coro.

Primeiro encontro do grupo após o confinamento.

Fomos acampar no fim de semana numa praia linda, tocar e cantar.

Tudo óptimo, alegria e a energia de reivindicar a alegria.

E hoje de manhã pela hora do nosso encontro correu o rumor de que um jovem se afogou…

Alguns correram para ajudar, foi tarde demais, o rapaz da aldeia morreu.

Os uivos de uma ambulância no sítio menos provável.

O nosso ensaio foi cancelado, partimos do sítio mais cedo.”

Sensação de culpa. Um coro e um homem afogado.

Tarde, sol. Fim de tarde, sol; Günther Anders, primeiro marido de Hannah Arendt.

Livro sobre Kafka.

Anders fala da “fome moral” em Kafka.

Observar a expressão com microscópio.

A fome nunca se sacia em definitivo.

Daqui a pouco mais fome. Amanhã também. Mais fome moral.

Expressão que faz tremer. Brasil, manifestações na Paulista.

Muitas pessoas lado a lado separadas mais de um metro.

Cada um com a fotografia de um morto pela pandemia.

Parece exército bem alinhado, mas com uma imagem na mão.

A vida é um “processo de auto-acumulação de culpa”, diz Anders sobre Kafka.

Um conta-quilómetros substituído por um conta-culpas na cabeça.

Assinalar com um traço na parede cada culpa nova.

“A consciência anda em círculos”, escreve Anders.

Um círculo é uma forma de prisão.

Fizemos uma paragem no caminho, na fonte de uma aldeia, para cantar 4 músicas – diz a minha amiga.

Vi um dia este coro em Atenas; canções tradicionais gregas.

Instrumentos quase riem e pés impõem seriedade e ritmo.

Déjà-vu, mas auditivo: nunca ouvi isto e sempre ouvi isto.

Um regresso à música em todo o lado. Ouve-se na América.

Say It Loud – I´m Black and I’m Proud, de James Brown.

Raves ilegais em Manchester. Um morto.

Fala-se de pessoas em delírio em muitos pontos do mundo.

Festas escondidas.

Umas vezes violentas, outras vezes não.

Muitos saíram à rua esta semana e não foi para se sentar.

Delírio, etimologia provável. Do latim delirium.

Significava: acto do arado sair fora do sulco.

Lira: “sulco do arado”. Fora da lira, delírio: o arado sai do seu caminho, da sua linha.

Já não organiza o terreno, não faz o útil.

Faz simplesmente aquilo que não se entende: o torto e o imprevisível.

A história das palavras; perguntar a uma palavra: em que é que estás a pensar? Ela responde.

Estudo características de vários animais.

Quero fazer zooliteratura, isso para mim é claro.

Os bons ouvintes e os olhos mais esbugalhados não estão entre os humanos.

Leio que algumas formigas conseguem comer e guardar algo no estômago sem digerir.

Quando a comunidade precisa, elas regurgitam o alimento intacto para todos comerem.

É um “estômago social”, dizem.

Estômago individual, estômago social.

“Incluam-me de fora”, diz alguém.

Por vezes, isso.

Exigir a inclusão bem fora do círculo traçado com o teu nome com tanto cuidado.

Nas Américas e nas Europas, em movimento, uma fome moral colectiva.

Mas nem todos vão pelas mesmas ruas.

Uma menina dança à espera do pai; um cão está à porta a abanar a cauda; um homem acabou de partir uma montra e está a fugir.

E por vezes há três tiros nas costas.

“Não se pode errar no óbvio. Os erros têm de ser nobres”, diz uma cantora.

Imagino alguém que devora o alimento moral mas não o digere, guarda-o.

Mais tarde, quando o grupo necessita, ele regurgita esse alimento moral.

Mas nessa altura, talvez os outros agradeçam e digam que não.

Já estão saciados.

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Índice

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