Diário da Peste. Um homem afogou-se em Deus

Diário da Peste,

3 de Junho

Protestos podem levar a novos surtos de Covid-19, alerta a Saúde Pública dos EUA.

Rali da Finlândia cancelado.

Mais de 5 mil índios da Amazónia infectados.

Propagação está a acelerar no Irão.

Do campo dizem: dois melros e a doença chegou à aldeia.

Dois melros, 4 infectados.

Natureza que canta perde 4-2 para a natureza que assusta.

Na aldeia, o número quatro é já número alto.

Os números não são todos do mesmo tamanho.

Vais da cidade para o campo e um melro já é som suficiente para começares a pensar em coisas inúteis.

Reabertas todas as mesquitas na Faixa de Gaza.

A Federação de Nadadores-Salvadores recomenda: os vigilantes devem privilegiar o salvamento “sem entrar na água” .

Salvar sem entrar na água.

Salvar sem entrar no fogo.

Salvar sem entrar na terra e salvar com máscara (bem protegido do ar).

Quem salva fica longe de quem está em perigo.

Salvar à distância.

Arrabal, Topor e Jodorowsky criaram nos anos 60 o movimento artístico Pânico.

“Estou em Pânico e divirto-me”, era o lema do grupo.

Salvar quem se afoga sem molhar os pés não é fácil.

Voltámos aos salvamentos místicos.

Um inquérito imaginado na minha cabeça.

Se Deus é a água da piscina, a que a altura está a água da tua piscina?

Se Deus é água do mar, até que a altura avanças?

Pões-te em bicos de pés e ficas com a cabeça à tona?

Ficas muito tempo debaixo de água, sem respirar?

Nadas? E se sim, rápido ou lento?

Tens medo de afogamento?

Trudeau fica “21 segundos em silêncio antes de responder a pergunta sobre Trump”.

Uma intervenção à Cage – mas um silêncio bem mais modesto.

4 minutos e 33 segundos menos 21 segundos igual a 4 minutos e 12’.

Vitória evidente de Cage.

Os herdeiros de Cage. Uma vez processaram alguém por ter feito uma peça de alguns segundos de silêncio.

O silêncio era de Cage. Não se rouba assim o subtil.

No xadrez, “uma menina húngara é capaz de ganhar aos campeões”.

Uma das vantagens do xadrez é que não há retórica.

Tudo é silêncio e acto útil.

Não adianta muito abanares os pés ou a cabeça.

Tens de mexer uma peça e depois aguardar.

Uma boa síntese, mas a vida é um pouco mais móvel e imprevista.

Mais de 1.000 de pessoas deitadas frente ao Capitólio. Nem o som de um melro.

Itália abre circulação interna e fronteiras.

O vazio e o silêncio não são património do Oriente. Mas o Ocidente utiliza-os como um perfeito desastrado.

Deixa cair o silêncio ao chão e com isso faz uma barulheira.

Gosta tanto do vazio que instala no seu centro monumento e festa.

“O homem ocidental é metade, o homem oriental é metade.

O meu objectivo é construir um homem inteiro” – dizia Osho, o místico indiano (oriente) dono de vinte Rolls-Royce (ocidente).

Derek Chauvin pousou oito minutos o joelho sobre o pescoço de Floyd.

Na parte final, mais de um minuto sem ouvir uma palavra de quem instantes antes pedia socorro.

Entre o socorro e a mudez sem ar instala-se por vezes um instante decisivo.

Instante decisivo, termo da fotografia e da História privada e do mundo.

Acusado: homicídio em segundo grau.

É preciso protecção para a chuva ácida que aí vem.

Rilke na sua torre fazia poemas; no século XXI eles virão de bunkers.

Um homem afogou-se em Deus.

Outro não molha sequer os pés.

Como está a água hoje – quente ou fria?

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Índice

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