Diário da Peste. Uma mulher diante de um tribunal

Diário da Peste,

17 de Junho

Gráficos na televisão fazem curvas indesejadas. Curvas erradas.

Gráficos não humanos; uma biologia que não entende de médias, mediana, curva de Gauss, etc.

Como animal cego, a biologia avança sem ordem; só fúria.

Melancólica Jeri e intempestiva Roma juntam-se no furor com que atacam comida e ar puro fora de casa.

Mas são mansas.

Sapatos desinfectados por baixo, céu quase sem nuvens por cima.

A fúria não entra nas estatísticas; colapsa previsões e estudos de lápis técnico atrás da orelha.

Filme que anuncia o seu fim e recomeça.

O vírus no norte e no sul, jogo das escondidas: desapareci, apareci, desapareci.

Os mitos, Quignard, apontamentos.

Uma mulher diante de um tribunal.

Dizem-lhe: só pode salvar um dos homens.

O seu marido, o seu filho ou o seu irmão.

Apenas pode salvar um.

Ela afasta-se e pensa longamente. Depois regressa.

O meu irmão, diz.

Psyttaleia, pequena ilha no mar Saronikos de Atenas.

Uma análise dos esgotos urbanos.

Aumento drástico do uso de drogas e medicamentos psicotrópicos.

Uma soprano a cantar Cante Jondo de Lorca.

Zócalo, cidade do México. Louco com altifalante: el fin do mundo es invisible.

Inventei este louco, gosto de inventar loucos.

Importância do lixo, dos esgotos.

Os restos da cidade como os indícios de saúde e doença, como num humano.

Os dejectos são o sinal.

Não percas de vista os teus restos: Atenas, Lisboa, Nova Iorque, Londres. A polis tem de olhar para trás.

Psyttaleia, esgotos:

cocaína, record da década: 800 gr por dia

subida no uso de anfetaminas: 650%

do ansiolítico lorazepam: 77%.

dos antidepressivos: 31%.

Morreu o líder indígena brasileiro Paulinho Paiakan, “um dos maiores defensores da floresta Amazónia”.

Centenas estão a morrer com a pandemia.

“Nossos anciões são sagrados e fonte de sabedoria dos povos indígenas.” O estrangeiro e o amigo são os dois perigos. Na Amazónia e em Atenas. Em Londres e Nova Iorque.

Muitas notícias com esta estranheza: são os mais próximos os que mais contaminam.

Doença por afinidade e proximidade excessivas.

O solitário é o privilegiado nas doenças contagiosas; o alvo principal das doenças depressivas.

Formas de cumprimento à distância, com desenhos e identificação do local onde é mais comum.

Cotovelo com cotovelo, China.

Pé com pé, Líbano.

Punhos fechados que se aproximam mas não se tocam, Irão.

Ficam uns centímetros um do outro: punho e punho.

A mão felizmente não respira.

Lembro Bruce Lee: um golpe velocíssimo com a mão que trava a uns milímetros do rosto do outro.

Comunidade na rua: Bruce Lee lento e destreinado diante de outro ser vivo de igual desleixo.

Um golpe lentíssimo que pára a dois metros do outro. E em vez de se aproximar, diz adeus. Os humanos estão assim.

O portão avariado; guincha como se estivesse vivo.

O mito. Porque escolheu o seu irmão?

Ela responde: posso ter outro marido.

Posso ter outro filho.

Os meus pais já morreram, não posso ter outro irmão.

Ásia, alguns países – lema da semana: não te cumprimento porque te amo. Baixar a cabeça e a parte superior do tronco em reverência. Japão.

Índia: mãos juntas à frente do tronco e o baixar da cabeça.

Porque escolheu o irmão, perguntam de novo?

Porque é o único com quem posso relembrar a minha infância.

Zócalo, cidade do México. Louco com altifalante: el fin del mundo es invisible, el fin del mundo es invisible, el fin del mundo es invisible.

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Índice

As libelinhas aproximam-se dos cogumelos

Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo

O nosso ensaio foi cancelado

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