Djamila Ribeiro | É recorrente que queiram respostas minhas a falácias

No primeiro ano do curso de filosofia, tive aulas de leitura estrutural de textos filosóficos. Lembro como se fosse hoje dos professores dizendo: “Precisam ver os argumentos lógicos do texto”. E era possível passar horas lendo e refletindo sobre um pequeno trecho. 

Quando cursei a disciplina filosofia da lógica, aprendi o que era um argumento falacioso, supor como dado aquilo que se quer provar. 

Lembro de não gostar de filosofia medieval, mas, por se tratar de uma disciplina fixa, tive de cursar. Eu me comprometi a estudar ao máximo o pensamento de Tomás de Aquino para não repetir de ano e ter de fazer a disciplina de novo. Eu não gostava nem um pouco, mas passei horas na biblioteca estudando até entender o que era realidade gnosiológica intermediária em Aquino.

Passei e cumpri a promessa. Não era uma questão de gostar ou não, o mundo não gira em torno de mim, mas de compreender e utilizar argumentos embasados. 

Por que eu estou dizendo tudo isso? Porque é recorrente que as pessoas queiram que eu responda a falácias ou a textos sem base nenhuma. E considero isso a morte do pensamento crítico. Vejam bem, eu já fui uma pessoa que caiu nessas armadilhas. No estilo “Street Fighter”, seguido de um “Let Them Fight”, já fiz grandes embates nas redes sociais, utilizando deboche, única forma possível com pessoas que “argumentavam” como o “tio do zap zap”. Ou que diziam “não gosto de lugar de fala, sua boba, chata”. Ou, ainda, apelando para uma autoridade construída historicamente que legitimou somente um grupo, o masculino e branco, como o detentor do regime de autorização discursiva (alô, alô, lugar de fala!). Alguns homens, mesmo sem ler sobre um tema, se sentem no direito de discordar porque eles cresceram ouvindo que eram bonitos.

A essa altura do campeonato, não caio mais nessa. É próprio da tradição filosófica a dialética, tese e antítese. Spinoza não criticou o pensamento de Descartes na base do “eu disse, logo é verdade”. Mas, com as produções intelectuais de mulheres negras, acontece sempre. “É besteira”, sem o mínimo respeito ao trabalho intelectual empreendido. 

Dizer que é besteira não é argumento válido. De intelectuais risíveis a revolucionários de YouTube, a tática é a mesma: rebaixar o pensamento crítico para fazer valer na birra a opinião de zap zap. 

Eu não fiquei horas estudando excertos de textos para isso. Uma vez publiquei um artigo sobre Simone de Beauvoir e, para discordar de mim, uma moça escreveu: “Essa daí não deve ter lido ‘O Segundo Sexo’. Entendo, o livro é longo”. 

Em vez de fazer a leitura crítica do texto e apontar, de forma baseada, suas discordâncias, ela preferiu ir para o insulto. À época, eu escrevia minha dissertação de mestrado sobre Beauvoir e havia me apresentado duas vezes na Simone de Beauvoir Conference —conferência anual organizada por pesquisadoras internacionais. 

Só quando soube das minhas “credenciais”, ela recuou. Ou seja, ao ver que se tratava de uma mulher negra, a moça automaticamente intuiu que eu não tinha lido o livro ou não tinha condições para refletir 


criticamente sobre ele (alô, alô, lugar de fala!). 

Do lugar social que eu parto, nossos saberes são deslegitimados. Quem se nega a debater com profundidade sobre locus social fica preso no solipsismo. Deveria começar por ler a análise de Sartre sobre o conflito das consciências e a crítica ao solipsismo e terminar em Adilson Moreira, sobre solipsismo branco, coisas que um estudante do primeiro ano saberia analisar.

Nessa ânsia caça-clique lacradora, textos sem base e ressentidos são publicados por homens que julgam que epistemologias negras precisam ficar no lugar da subalternidade. Eles que aprendam a criticar. Ou, como dizem nas redes, “eles que lutem”.

Quando certas pessoas entenderem como Beauvoir realizou a tradução francesa do “mitsein” para pensar a condição da mulher; como Grada Kilomba pensa a mulher negra como dupla antítese de branquitude e masculinidade, que é a explicação colonial de destituição de humanidade; como Linda Alcoff refuta uma epistemologia mestre; como Patrícia Hill Collins categoriza o “ponto de vista feminista” e a crítica de Lélia Gonzalez à “ciência eurocristã patriarcal”, aí já dá para começar a brincar. 

Depois, é preciso entender como todos esses conceitos foram empreendidos para se pensar lugar de fala como refutação de um regime que nega alteridade. Daí, podem criticar e me convidar para um debate sério. Até lá, não me convidem para ressuscitar enterrados nas covas profundas do ostracismo. Feliz Ano-Novo a quem pensa com honestidade intelectual.

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