Em tempos agitados, a velha ponte de Paul Simon continua por aí

Paul Simon escreveu-a numa noite de 1969, de um fôlego, no seu apartamento em Nova Iorque. “Não sei de onde veio a ideia”, disse ele mais tarde num documentário. “Apareceu de repente. Foi um dos momentos mais chocantes da minha carreira de compositor.” Mas a canção Bridge over troubled water (ou Ponte sobre águas agitadas, como foi traduzida no livro Os Sons do Silêncio, ed. Fora de Texto, 1993) não nasceu do nada. Simon tinha andado a ouvir gospel, em particular um grupo chamado The Swan Silvertones, formado por quatro mineiros nos anos 40, que, entre outras canções de pendor religioso, tinha gravado o tradicional Oh Mary, don’t you weep. Ora, no improviso da canção, o vocalista principal, Claude Jeter (que se tornaria pregador, deixando o grupo), cantava: “I’ll be your bridge over deep water/ If you trust in my name” (isso pode ouvir-se aos 2:09 da gravação que está no YouTube). Uma ponte sobre águas profundas, uma ponte sobre águas agitadas e a América em ebulição dos anos 1960 fez o resto. Com a arte de Paul. Em Abril de 1970, entrevistado no The Dick Cavett Show, Paul Simon referiu essa influência. Mas não foi a única coisa que ele retirou de Oh Mary, don’t you weep. Num verso da canção, diz-se “If I could I surely would”. E Paul Simon usou a mesma frase, repetida, na sua versão do tema musical inca El condor pasa. Logo a seguir a Bridge over troubled water.

Porquê tudo isto? Porque Bridge Over Troubled Water, não a canção mas o disco, faz agora 50 anos. E, em simultâneo, o espectáculo da Broadway The Simon & Garfunkel Story volta aos palcos portugueses: esta quinta-feira no Tivoli BBVA, em Lisboa; sexta-feira no Casino do Estoril; e sábado na Casa da Música, no Porto. Quem os viu em 2015 notará uma diferença. Nesse ano, Paul Simon era interpretado por Dean Elliot e Art Garfunkel por David Tudor. Agora esses papéis estão atribuídos a Sam O’Hanlon e Charles Blyth. Aliás, há mais “Simons” e “Garfunkels” a cantar por esse mundo (é um musical, e eles são cantores e actores). Paul Simon já “foi” Philip Murray Warson e agora é interpretado por Taylor Bloom ou Adam Dickinson, enquanto Benjamin Cooley ou Cameron Pott encarnam o papel de Garfunkel.

Voltando à ponte: composta na guitarra, a parte de piano (que viria a ser determinante na sua majestosa sonoridade) foi entregue ao pianista Larry Knechtel e levou três dias a compor. Paul queria que Bridge fosse “um pequeno hino”, mas Garfunkel (cuja voz angelical serviria de forma perfeita a canção) e Roy Halee, engenheiro de som que trabalhava com a dupla desde o início, imaginavam-na grandiosa, e pediram-lhe uma terceira parte. Paul, contrariando os seus hábitos, acabou por escrevê-la no próprio estúdio: “Sail on, silver girl…” Ainda soa a Silvertones.

Lançado nos Estados Unidos em Janeiro de 1970 e na Europa em Fevereiro desse ano, o álbum Bridge Over Troubled Water foi o 17.º dos 100 mais vendidos da década de 70 (à cabeça estava The Wall, dos Pink Floyd) e o campeão comercial de 1970. Vendeu oito milhões de exemplares (a conta, actual, já ultrapassa os 25 milhões) e ficou à frente de Déjà Vu, dos Crosby, Stills, Nash & Young (sete milhões), All Things Must Pass, de George Harrison (seis), Led Zeppelin III (seis), Abraxas, dos Santana (cinco), Cosmo’s Factory, dos Creedence Clearwater Revival (quatro), Paranoid, dos Black Sabbath (quatro), Let It Be, dos Beatles (quatro), Tea For The Tillerman, de Cat Stevens (três) e Sweet Baby James, de James Taylor (três). Na lista dos 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 70 (a edição portuguesa é da Estampa, de 2005), o ano de 1970 só tinha estes dez, e com Bridge à cabeça.

Agora, a velha ponte voltou à tona. A celebrar os seus 50 anos, a britânica Uncut lançou uma revista de 122 páginas dedicadas à história e à obra de Simon & Garfunkel, em duo e a solo, enquanto em disco Bridge Over Troubled Water ganha uma reedição luxuosa em vinil dourado. Já houve muitas, ao longo dos anos. Em 2011, pelos 40 anos do LP, a Sony (que hoje tem o catálogo da Columbia, a velha CBS) lançou um CD triplo com Bridge, acrescido do excelente Live 1969 e de um DVD com os documentários Songs of America e The Harmony Game. E a Mobile Fidelity, mestre na audiofilia, fez uma edição que custa hoje entre 200 e 1000 euros.

“Quando os tempos estiverem difíceis/ E não encontrares amigos/ (…) Eu confortar-te-ei/ Estarei ao teu lado”. Paul Simon não acreditava que fosse um sucesso. Até porque tinha 4 minutos e 55 segundos, fora dos padrões radiofónicos. Mas quando a ouviu na rádio mudou de opinião. Bridge teve, até hoje, muitas versões: Elvis, Aretha, Johnny Cash, Peggy Lee, Jackson 5, muitas mais. E permanece firme, enquanto os tempos voltam a estar agitados. Como sempre. Mais uma vez.

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