Em três atos, O que é ser mãe

21.5.2008

Primeiro ato – Conversa com Vitor, o marido

– Você gosta muito de Luana, eu sei. E a trata com bastante carinho – disse Sofia.

– ???

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– Seu amor pela minha filha é maravilhoso, incondicional, e tudo mais.

– “Minha filha”? Você quis dizer “nossa filha” – retrucou Vitor.

– É claro, nossa filha. Isso não se discute.

– Sim, e daí?

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– Mas você precisa entender uma coisa, Vitor. E se conseguir entender ficarei convencida de que seremos muito felizes…

– ???

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– Amor de mãe é diferente. É um amor possessivo, visceral, sem condições, completo, definitivo.

– O de pai também…

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– Sem comparação, Vitor, por favor. Sem comparação. Luana é minha! Minha! Ela é uma extensão de mim. Tenho vontade de a pôr de volta na minha barriga para que nada de mal lhe aconteça. Não quero dividi-la com ninguém, com ninguém.

– Não pode ser assim, Sofia.

– Pois é assim. Será assim. Por mim ela não cresceria. Ficaria do tamanho que está.

(Luana está com 64 centímetros e pesa cinco quilos e meio. Completará quatro meses depois de amanhã.)

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 Segundo ato – Conversa com Rebeca, a mãe

 – Você acha normal o que sinto por Luana?

– Normal, é. Mas os filhos crescem e a gente perde o controle sobre eles – respondeu Rebeca.

– Conversa fiada, mãe. Você ainda controla seus três filhos…

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– Controlo nada. Se controlasse, eles não fariam certas coisas…

– Eu sei, mãe, que Luana crescerá, e que se tornará independente. Vitor diz que a gente cria filhos para o mundo…

– É isso mesmo…

– Mas eu não quero criar Luana para o mundo, não quero. Quer saber a verdade? Não a imagino saindo por aí, mocinha, com os amigos, daqui a pouco namorando, depois…

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– Mas você fez tudo isso, Sofia…

– Mas não quero que minha filha faça. Não quero. Ficarei com raiva se fizer.

– Não tem jeito, Sofia. Não tem – insistiu Rebeca, resignada.

 Terceiro ato – Conversa comigo, o pai

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 – Sua mãe me contou a conversa que vocês tiveram sobre Luana…

– Pois é, pai. Quando eu olho para ela, penso assim: Luana jamais sobreviverá sem mim por perto. Jamais.

– Eu nunca pensei assim a respeito de você e dos seus irmãos. Mas sua mãe pensou e ainda pensa.

– Vocês foram pais muito liberais, muito liberais.

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– Foi o que sempre disse à sua mãe. Lembra que eu lhe achava muito jovem para começar a namorar? Você tinha 13 ou 14 anos?

– Doze.

– Um absurdo, está vendo?

(Sofia não responde. Eu continuo.)

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– Quando você me disse que queria casar fui contra. Você ainda era muito jovem. E continua sendo. Mas você casou…

– Eu sei, pai…

– E casou com um barrigão de sete meses… Eu dei minha opinião, mas respeitei a sua. Fez-se a sua vontade, exclusiva vontade.

– Não estou reclamando, pai.

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– Não, não está. Está sendo apenas incoerente. Não quer para sua filha o que quis para você mesma.

(Silêncio do outro lado da linha. Continuo.)

– Não entenda como uma ameaça porque não é. Nem como uma vingança. Mas saiba desde já que serei um aliado incondicional de Luana. Darei a maior força para que ela se liberte dos pais quando quiser e do jeito que quiser.

– Você é muito mau, pai, muito mau.

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– Ora, você não me pedia ajuda quando sua mãe dizia “não” às suas vontades? E depois não brigava comigo quando eu brigava com ela por causa de você?

– Repito, pai: você é muito mau.

– Sou realista, Princesa. Apenas realista. Embora inconformado com a realidade.

– Não serei uma boa mãe, pai.

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– Você não será tão diferente das outras. Mas caso prefira, me dê Luana para criar. Você poderá vê-la sempre se quiser. E até poderá voltar para casa. E se fizer muita questão poderá trazer Vitor também.

(Sofia bate o telefone sem dizer uma palavra a mais.) 

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