Estados Unidos e Açores: esta é uma semana política decisiva

Estamos já numa das semanas políticas mais importantes de 2020, aquela em que os cidadãos norte americanos vão escolher o seu presidente para os próximos quatro anos, num processo complexo, de desfecho imprevisível, e que se pode arrastar por dias. Como tenho escrito, espero que o bom senso coletivo prevaleça, e que os americanos ponham fim ao pesadelo Donald Trump, um homem que não reúne os critérios mínimos de decência para estar no cargo que ocupa.

Nesta reta final da campanha eleitoral, tem sido confrangedor assistir aos comícios e entrevistas de ambos os candidatos. Trump é um farsante descarado que repete, de forma afetada, mentiras simples que os seus apoiantes transformam em verdades inquestionáveis; por sua vez, Biden é um reformado simpático que faz algumas confusões e diz verdades importantes, mas com tal falta de chama que até parecem ser mentira.

A recente aparição de Barak Obama num comício democrata foi quase contraproducente, pois os papéis pareciam estar trocados: o antigo presidente confundia-se com o candidato, e este assemelhava-se a um antigo presidente que saíra do seu merecido descanso para dar uma ajuda dormente a um candidato enérgico. Curiosamente, os papéis também parecem estar trocados em ambas as candidaturas: Mike Pence tem um discurso muito mais estruturado e decente que Donald Trump; e Kamala Harris é infinitamente mais carismática que Joe Biden. Com estas duplas, é legítimo perguntar: quem será de facto o futuro presidente dos Estados Unidos?

Por cá, os cidadãos açorianos foram a votos, e elegeram um novo parlamento regional, atomizado à direita. Esta é uma nova realidade, que coloca desafios de magnitude. Até agora, as alianças à direita faziam-se de forma mais ou menos consensual entre PSD e CDS. Muitas vezes, estas materializaram-se, tanto a nível autárquico como nacional, em coligações pré eleitorais. Ou seja, genericamente, PSD e CDS comungam de valores básicos semelhantes e têm sido aliados naturais, dispensando a necessidade de imposições externas de acordos ou compromissos escritos.

A situação mudou agora nos Açores, e o PSD, que elegeu 21 deputados num total de 57, pode agora fazer contas à direita não só com o CDS (4 deputados, 1 deles em coligação com o PPM), como com o Chega (2 deputados), a Iniciativa Liberal (1 deputado), e o PPM (um partido inexistente mas que continua a contar nos Açores, onde elegeu um deputado).

A evolução da situação pós eleitoral nos Açores tem de ser seguida com atenção. O PS, vencedor das eleições, elegeu 25 deputados e ficou longe da maioria absoluta, onde não chegaria nem com o apoio do BE (2 deputados) e do PAN (1 deputado). Entre as várias hipóteses para assegurar o apoio dos 59 deputados necessários para aprovar a maioria das iniciativas legislativas, as mais plausíveis passariam pelo apoio do CDS a um governo regional minoritário do PS, ou por uma coligação de toda a direita (PSD; CDS; Chega; IL e PPM).

Antes do mais, a prática política dá ao PS, como vencedor das eleições, a primazia na proposta de um governo regional. Acontece que o PS reconheceu que não tem condições para formar um governo estável, e colocou já a hipótese de eleições antecipadas. Sou um defensor acérrimo da estabilidade mas acho que, neste caso, dado o impasse provocado pela escusa do PS em formar governo, a direita democrática não pode assumir a responsabilidade: o CDS não vai por certo querer viabilizar neste contexto um governo PS, e hipotecar a sua credibilidade como partido assumidamente de direita; noutro cenário, nenhum dos partidos da direita democrática deveria aceitar uma aliança

com o Chega, nem que esta seja sobre a forma de um acordo parlamentar. Não deveria ser André Ventura a não querer nada com os “partidos do sistema”, mas sim a direita democrática a rejeitar qualquer ligação ao populismo de André Ventura.

Alianças esdrúxulas são uma realidade em contexto autárquico, mas já não são admissíveis a nível de um parlamento ou governo regional. Eleições antecipadas não são pois um cenário desejável mas, neste contexto, têm também de entrar na equação. É preferível clarificar que ceder em princípios estruturantes, aqueles que não se podem compadecer com flexibilidades táticas.

Tanto nos Estados Unidos, quanto em Portugal, esta vai mesmo ser uma semana política decisiva.

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