Etiqueta respiratória e escarradores virtuais

Agora que a pandemia do chamado coronavírus nos ajudou a relembrar, entre o mais, uma coisa tão elementar quanto a etiqueta respiratória (não há mal que não tenha, também, os seus efeitos positivos), talvez seja tempo de, uma vez mais, alertar para outro tipo de etiqueta. Que também é elementar, ou deveria ser, e que previne a proliferação de várias doenças, para além das dimensões ética e estética que tem, e que, mais coisa menos coisa, são similares às da etiqueta respiratória – pois é certo que não é lá muito bonito nem correto espirrar ou tossir para cima dos outros, e ainda menos é cuspir ou – esse hábito ainda muito português – escarrar para o o ar ou para o chão. 

Refiro-me à necessária e imprescindível etiqueta no mundo virtual, seja o dos sítios e blogues, seja o das redes sociais, seja o dos comentários a notícias e a opiniões. Mundo esse onde vale quase tudo ou mesmo tudo, e onde muitos não têm o mínimo pejo de tossir, espirrar, cuspir ou mesmo escarrar para cima, para perto ou na frente de quem quer que seja. Nessa “sociedade virtual” há quem não tenha quaisquer limites, pudores ou cuidados, e muitos aproveitam para deitar cá para fora os piores mucos que segregam, seja sob a forma de ofensas, calúnias, processos de intenção, ressabiamentos, frustrações, invejas, ordinarices e fraquezas várias, seja sob a forma de mentiras, deturpações, adulterações e falsidades. E também há quem, sobre o escarro próprio ou alheio, se queira colocar em bicos de pés. Enfim, um cortejo de imundície, mas muito frequentado e muito popular. Tanto mais quanto, por um lado, atrás de um ecrã e de um teclado a coragem (ou a ilusão dela) e a falta de limites tendem a crescer e, por outro lado, os tempos são muito propícios a estes ambientes insalubres e doentios. Um caldo muito perigoso e explosivo. 

Dir-me-ão, porventura: sim, até pode ser, e então? Para além do escarro que os visados levam de raspão ou mesmo em plena cara (o que já seria muito, de mais, em minha opinião), que mal vem daí ao mundo? Que doenças, que epidemias, que pandemias? Várias, e perigosas, digo eu. A doença da estupidez, a do populismo, a da precipitação, a da falsa informação, a da erosão do espírito crítico, para já não falar na falta de civilidade e de educação. E uma enfermidade muitíssimo letal, que é a falta de imunidade ou de resistência contra o medo, que é de todos os sentimentos humanos o mais perigoso e o mais manipulável, porque é aquele que vai ao coração do que mais animal há em nós. E quem diz medo, diz depois ódio, expiação, desnorte, e toda uma espiral incontrolável de desumanidade.

Já o vimos tantas vezes, ao longo da História, mas aprendemos tão pouco, evoluímos aí tão pouco, ao contrário do que evoluímos em matéria de ciência e de tecnologia. Aí somos exatamente como éramos há milhares de anos, com a diferença de que agora somos muito mais, estamos todos em rede, tomamos (erradamente) como certas e adquiridas certas conquistas, hiperbolizamos os direitos e desvalorizamos os deveres; e a tecnologia, com a sua brutal evolução, é uma arma muito eficiente de conquista da nossa animalidade, e dos seus brutais efeitos. Não escarrem no mundo virtual, não cuspam, e tussam e espirrem com cuidado, temperança e civilidade. Aí sim, é a humanidade, como a conhecemos (se é que há outra), que pode estar em questão. 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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