Mariana Belmont | Opinião: Esquerda branca e classe média não veem como racismo é central

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa!

Que semana triste, camaradas. Que semana cheia de sangue, choro e tristeza. O Brasil foi fundado no projeto de genocídio de pessoas negras.

Enquanto o principal projeto político deste país não for barrar o genocídio da população NEGRA E PERIFÉRICA, NADA será efetivo, não teremos chance de mudança! Ou se coloca a luta antirracista na centralidade do debate e da prática política, ou, a gente não vai avançar e seguiremos nessa lama de sangue.

Não tem inspiração para texto longo, não tem mais palavras que se conectem diante de tanta revolta. Não imagino e jamais sentirei a dor que a mãe e o pai do João Pedro sentem agora.

O mundo vive uma pandemia, as pessoas estão com fome, sem água, morrendo todos os dias nos hospitais públicos. Vemos instituições pensando como colocar a quebrada pra dentro de casa, as matérias da grande mídia problematizando o pobre na rua, em um fingimento de “não saber” que o Estado não respeita casa ou rua. O Estado não respeita o povo pobre e preto de diversas periferias deste país.

A imprensa naturaliza a morte e não dá nome ao que acontece a cada 23 minutos neste país. Eu lhes digo: é genocídio. O que ocorreu em uma operação que subia uma comunidade na semana passada e matou várias pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, é genocídio. A desumanização se reflete em números frios. “A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e? Fogo! Para não ter erro”, como disse o governador do Rio de Janeiro, como promessa de campanha.

Não há pandemia que segure o Estado genocida. As operações policiais realizadas durante a crise sanitária de Covid-19 expõem uma política de segurança pública que viola o direito à vida. 80% dos mortos por policiais no Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2019 eram negros ou pardos, segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado.

Pois é, o João Pedro estava dentro de casa, brincando com seus primos, quando foi alvejado pela polícia! DENTRO DE CASA! Mataram João Pedro e o colocaram em um helicóptero. Sua família ficou por 16h, veja bem, DEZESSEIS AFLITAS HORAS, sem saber o que tinha acontecido com ele. Depois de uma campanha #procurasejoaopedro, descobriram que o corpo de João estava no IML. Crueldade!

A Paz, como anunciou Marcelino Freire, está proibida. Em 2016, em um ato que organizamos pelo Periferias Contra o Golpe, ouvi a atriz Naruna Costa declamar “Eu não sou da paz”, do escritor brasileiro. Hoje, não tenho mais o que dizer. Encerro a coluna desta semana com um pedido: veja o vídeo e leia o texto abaixo.

Eu não sou da paz – Marcelino Freire

“Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.

Uma desgraça.

Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não. Não vou.

A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.

Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.

Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?

Hein?

Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.

A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?

A paz é que não deixa”.

Em tempo – Entreguei esse texto para a redação de Ecoa ontem de manhã. E mais uma notícia trágica: dois dias depois, aconteceu de novo, e de novo e de novo. Mais um João vítima de operação policial no Rio de Janeiro. João Vitor Gomes da Rocha, de 18 anos, foi morto atingido por tiros quando um caveirão da PM entrou na Cidade de Deus, interrompendo uma ação de distribuição de cestas básicas.

Até quando?

Todos os dias, a cada hora, a cada minuto, a cada momento.

As pessoas estão morrendo de fome, de bala, de vírus, mas quem são? Pobre e preto.

Que dias tristes, mano. Que ódio!

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