#MeToo: A acusação de assédio de jovem atriz Adèle Haenel contra diretor que abala o cinema francês

Adèle Haenel no festival de Cannes em maio de 2src19Direito de imagem
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Adèle Haenel diz que tentou cortar relações com o diretor quando tinha 15 anos

Uma denúncia de assédio sexual abalou o cinema francês.

A atriz Adèle Haenel acusa o cineasta Christophe Ruggia, diretor do seu filme de estreia no cinema, de tê-la assediado sexualmente quando era adolescente.

Ela decidiu tornar público o ocorrido após assistir ao documentário Leaving Neverland, baseado no depoimento de dois homens que dizem ter sido abusados por Michael Jackson na infância.

“Mudou minha perspectiva”, afirmou Haenel em uma entrevista longa e emocionada ao site de notícias Mediapart.

“Me fez ver que me agarrei por muito tempo à versão do (diretor de cinema) Christophe Ruggia, de que tudo tinha sido uma história de amor… (O documentário) me fez entender os mecanismos de controle e fascínio”, explicou.

Haenel, que hoje tem 30 anos, tinha apenas 12 quando foi escalada para o elenco do filme Les Diables, de Ruggia — no qual ela interpreta uma órfã autista que foge com o irmão para encontrar os pais.

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Ruggia (ao centro) admitiu erros em sua conduta, mas negou acusações de abuso sexual

Segundo a investigação do site Mediapart – que incluiu o depoimento de cerca de outras 30 testemunhas -, Ruggia teria desenvolvido uma obsessão pela jovem estrela. Outros atores e técnicos do set de filmagem falaram sobre o que seria uma atmosfera doentia.

Os dois viajaram juntos para promover o filme e, mais tarde, ele a teria convidado para ir até a sua casa.

Haenel diz que foi quando ele a tocou e tentou beijá-la pela primeira vez, e declarou seu amor por ela.

Aos 15 anos, ela entrou em uma profunda crise emocional, tentou cortar relações com Ruggia e procurou ajuda de integrantes da equipe dele — mas poucos demonstraram empatia.

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Adèle Haenel ganhou duas vezes o prêmio Cesar, equivalente ao Oscar na França

Nesta semana, a Sociedade de Diretores de Filmes Franceses, da qual Ruggia foi copresidente por vários anos, expulsou o cineasta e se posicionou a favor de Haenel.

A atriz se recusou a registrar uma acusação judicial, argumentando que não confia no sistema judicial francês. No entanto, com base no depoimento publicado, a promotoria pública abriu uma investigação de “agressão sexual contra menor conduzida por alguém com autoridade”.

Ruggia nega abuso, mas admite ‘erros’

Ruggia, hoje com 54 anos, negou as acusações de abuso sexual, mas admitiu ter cometido “erros” em sua conduta em relação a Haenel.

“Não vi que minha adulação por ela e as esperanças que depositei nela — dada sua tenra idade —, parecessem penosas às vezes. Se foi isso que aconteceu… peço perdão a ela”, afirmou em comunicado.

“Minha exclusão social está em andamento agora, e não há nada que eu possa fazer para escapar.”

Christophe Ruggia fez apenas alguns filmes, nenhum deles teve muito sucesso. Nos últimos anos, ele tem sido um defensor aberto dos direitos dos imigrantes.

Adèle Haenel já atuou em mais de 25 filmes e ganhou duas vezes o prêmio Cesar — o equivalente francês ao Oscar. Entre os filmes em que atuou, estão: Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019), 120 Batimentos Por Minuto (2017), A Garota Desconhecida (2016) e L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância (2011).

‘Quebrar o silêncio’

A denúncia vem à tona dois anos após o surgimento do movimento #MeToo, que teve origem entre as atrizes de Hollywood contra a cultura de assédio sexual no principal cenário do cinema mundial.

Os apoiadores do #MeToo esperam que o caso possa acabar com o código de silêncio estilo ‘omerta’ — o código de silêncio praticado pela máfia —, que eles dizem ainda ter influência na indústria cinematográfica francesa e impede que muitas atrizes se manifestem sobre assédio.

“Acredito que seja uma espécie de momento de virada. É a primeira vez que uma atriz reconhecida internacionalmente, tão estimada, se abre sobre o assunto”, afirma Veronique Le Bris, que administra um site sobre mulheres no cinema.

“Adèle, sua coragem é um presente de generosidade incomparável… Você está rompendo um silêncio tão pesado”, escreveu a atriz francesa Marion Cotillard nas redes sociais.

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