‘Mom-shaming’: mães sofrem com críticas e palpites sobre como cuidar dos filhos

Camila Tuchlinski – O Estado de S.Paulo

17/05/2019, 07:15

Opiniões não solicitadas podem prejudicar mulher nos primeiros anos da maternidade; saiba o que não dizer

‘Mom-shaming’: mães sofrem com críticas e palpites sobre como cuidar dos filhos.

‘Mom-shaming’: mães sofrem com críticas e palpites sobre como cuidar dos filhos. Foto: Pixabay

“Sua barriga está muito pequena, o bebê não vai crescer bem”, “Seu leite deve ser fraquinho”, “Na minha época, os filhos comiam papinha desde os primeiros meses”. Frases como essas são ditas sem cerimônia para gestantes e aquelas que vivem os primeiros anos de cuidados com as crianças. No entanto, o que parece ser uma atitude cheia de boas intenções promove insegurança, irritabilidade e sofrimento para a mãe.

Cristina de Lima tem uma filha de um ano e dez meses. Desde que a pequenina nasceu, ela teve de enfrentar críticas dentro e fora de casa. “Palpite sobre amamentação sempre foi a parte que mais me irritou. Meu marido achava que me dava muito trabalho, que a amamentação estava me estressando. Ele dizia: ‘Dê fórmula. Ela não vai morrer se tomar fórmula’. E eu ficava chateada porque eu estava me esforçando. Algumas amigas que também amamentavam davam apoio, mas levantando a bandeira de que a fórmula é a pior coisa do mundo”, desabafou.

O termo ‘mom-shaming’ sintetiza as opiniões e palpites que pessoas próximas à mãe dão, mesmo sem ser solicitados. Normalmente partem de gente que se considera mais experiente na maternagem ou que tenha tido mais êxito do que os outros. E os estereótipos só são reforçados: é preciso ser ‘a mãe perfeita‘.

No período da introdução alimentar, Cristina lembra de como era a relação dela com a sogra. “Para minha sogra, com quatro meses minha filha já deveria estar comendo. Ela falava: ‘Credo! Com meus filhos, com quatro meses, eles já tomavam sopa na mamadeira’. E eu respondia: ‘Pode ter sido assim na época deles ou assim que você fez, mas minha filha só vai comer com seis meses, como o médico recomendou’. E minha sogra achava o fim do mundo”, recorda. “Hoje, ela percebe que minha filha come bem, elogia e tal, mas não se lembra que está muito associado à introdução alimentar, que ela sempre teve uma variedade de texturas e sabores. Não foi aquela sopa rala, líquida, que ela nem sabe o que está comendo”, avalia Cristina.

Mãe da Maria Fernanda, de quase três anos, Maria Carolina de Sá Martinkovivc recebeu cobranças a respeito do parto normal: “Notei uma cobrança tácita para que o parto fosse normal. Infelizmente, após 18 longas horas, tive que ser levada para a sala de cirurgia para realizar uma cesárea às pressas. Os pitacos são inúmeros, velados ou não. Há sempre uma história do filho da prima de alguém para inserir nos contextos das nossas vidas. Como lavar as roupinhas, como colocar a criança para dormir, como e quando desmamar, opções de escolas e por aí vai.”

Maria Carolina admite que já se sentiu fragilizada e acatou muitas ‘famosas dicas’. Ela recorda uma situação que viveu com familiares: “Quando a minha pequena começou a andar, caiu de cara no chão e teve que dar um pontinho no nariz. Um familiar comentou com outro: ‘A Carol estava com tanto medo da menina cair, que ela atraiu essa situação’. Meus caros amigos, ser mãe é um lidar constante com incertezas”, desabafa.

Maria Carolina de Sá Martinkovivc, mãe da Maria Fernanda, de quase três anos.

Maria Carolina de Sá Martinkovivc, mãe da Maria Fernanda, de quase três anos. Foto: Arquivo pessoal

Palpites começam desde cedo

Todo mundo que dá palpite para a mãe está com boas intenções? Não necessariamente. Relações entre avós e mães, sogras e noras, por exemplo, podem estar carregadas de rivalidade. A relação a dois também está repleta de emoções novas, como a perda de identidade do casal.

E o emissor do palpite sempre tem uma espécie de compensação emocional. “Todo comportamento tem um ganho. Se a avó vai ensinar a filha como ser mãe, por exemplo, pode querer demonstrar que deu uma boa criação. Quem dá opinião sempre busca resultado positivo, que normalmente é positivo para ele mesmo”, analisa o psicólogo Romanni Souza, criador da Hipnose Transformacional.

A mulher é alvo do ‘mom-shaming’ já na gestação. O obstetra Paulo Pontremolez acompanha essa realidade de perto durante o pré-natal. Segundo o médico, na consulta, não é raro alguns acompanhantes dizerem algumas frases inadequadas. “Já ouvi: ‘Nossa, sua barriga não tá legal, está esquisita’, ‘Não tá pegando muito peso, seu bebê não vai crescer’, ‘Sua mama não tá cheia, não vai conseguir dar peito’, ‘Você não vai conseguir fazer o parto normal’. É preciso ter cuidado para corrigir sem ofender. Entendo que as pessoas querem ajudar. Mas eu aproveito o momento em que a gestante está mais sozinha no exame para esclarecer pontos como a inexistência de leite fraco, por exemplo. Sempre digo que ela será a melhor mãe que puder ser”, relata Paulo Pontremolez.

Ana Carolina Cassola Barbieri, está grávida de 23 semanas da Giovana. Ainda não ouviu muitas críticas, mas confessa que fica insegura sobre os conselhos para compra do enxoval. “As pessoas dão dicas que podem ajudar, mas isso pode gerar insegurança e ansiedade, ‘nossa, preciso comprar um monte de coisa’. Mesmo para o chá de bebê, me senti completamente perdida. Foi legal, mas fiquei apreensiva. Meu Deus, tem coisas que nem sei pra que serve. Será que preciso mesmo disso?”, reflete.

Ana Carolina Cassola Barbieri, grávida de 23 semanas da pequena Giovana.

Ana Carolina Cassola Barbieri, grávida de 23 semanas da pequena Giovana. Foto: Arquivo pessoal

O que sentem as mães aos serem criticadas?

O ‘mom-shaming’ pode provocar diversos efeitos para a mãe. Os principais sentimentos são insegurança, humilhação, frustração e raiva. “Eu sempre fui muito segura quando minha filha era bebê e do que eu queria para ela. As opiniões não me deixavam insegura, mas irritavam. Se a mãe já é insegura de alguma maneira, aquele conselho só vai atrapalhar. Também pode causar atrito entre amigas, mães e sogras ou entre pais e primos. Muita gente opinando sem a mãe querer causa muito estresse. E a mãe não precisa desse estresse”, desabafa Cristina.

“A maternidade é um baú de inseguranças. Nos deparamos com medos e incertezas a partir do momento que temos a notícia da gravidez. O que comer, quando comer….tudo isso influencia na vida do bebê, viu?”, avalia Maria Carolina.

O psicólogo Romanni Souza lembra que a gestação e o puerpério são os períodos mais sensíveis para a mãe. “O emocional dela já está mais sensível no início, fica mais irritada. A frase: ‘Você deve fazer isso’ nunca é uma ‘sugestão’. Soa como imposição, ordem.

Como mulheres podem se proteger do ‘mom-shaming’?

Ao colocar em discussão o conceito ‘mom-shaming’, não conseguimos ajudar as mulheres que já passaram pelo problema. Talvez elas consigam refletir melhor sobre opiniões antigas e que não faziam sentido. Ou que, se algo ‘deu errado’, a culpa não necessariamente foi dela. No entanto, para as futuras mamães ou quem está vivendo esse momento da maternidade, algumas dicas citadas por Romanni Souza podem ser preciosas para elas: 

– Selecionar uma ‘Liga da Justiça’, ou seja, pessoas com as quais ela pode desabafar sobre a privação do sono ou amamentação, por exemplo, sem ser julgada;

– Dizer frases como ‘Nossa, meu filho não está dormindo direito e passou a noite em claro’ faz com que o ouvinte pense que a mãe está pedindo sua opinião;

– Se você não reclamar com as pessoas que dão palpites indesejados, eles não acontecerão;

– Evite tocar em assuntos que te deixam insegura com pessoas que você sabe que podem dar algum conselho inadequado.

Para além dessas dicas, não se posicionar sobre uma crítica ou palpite também não é saudável. Ao começar a viver a experiência da maternidade, a mulher não conseguirá se blindar de comentários alheios. Ignorar pode perpetuar o comportamento do outro. O melhor caminho, se possível, é argumentar, colocando em evidência o seu desejo em relação ao próprio filho.

A psicoterapia é uma boa companheira para aqueles que querem desabafar e entender melhor essa fase da vida. E sem ser alvo de julgamentos.

O que não dizer para as mães

É possível evitar o ‘mom-shaming’, desde que haja um pouco de empatia por parte daqueles que fazem parte da rede de apoio da gestante e das mamães de bebês.

Fizemos uma lista de frases que são ditas à revelia, muitas têm conceitos errados do ponto de vista científico, e devem ser evitadas:

“Sua barriga está pequena e o seu bebê pode não crescer muito”;

“Sua barriga está muito grande e a criança pode ser obesa”;

“Se você não passou pelo ritual do parto normal, será menos mãe”;

“Você é muito miudinha, duvido que conseguirá fazer o parto normal”;

“Você já tem uma certa idade, já é mais velha, talvez seja melhor fazer cesárea”;

“Se não está conseguindo amamentar, é porque não está se esforçando”;

“Acho que seu leite é fraquinho para o neném”;

“Se você não conseguir amamentar exclusivamente no seio, terá fracassado”;

“Desista de amamentar no peito, você não é capaz. Dê logo ‘fórmula'”;

“Seu bebê chora muito. Não será cólica? Não será fome?”, etc;

“Seu bebê chora muito e está ficando mimado”;

“Você colocou babá para tomar conta do seu filho? Por que quis ser mãe, então?”;

“Você tem coragem de deixar seu filho na escola o dia inteiro e ir trabalhar?”.

E, para os ‘palpiteiros de plantão’, as mães ouvidas pela reportagem mandam recados. “Se você não é mãe, não dê opinião. Porque você só vai entender como a coisa funciona, que a maternidade tem muito mais detalhes e é muito mais difícil do que imagina, depois que tiver um filho. E o que vale para todos, até quem é mãe: Só fale se os pais pedirem opinião. Se eles fizerem isso, dê sua opinião sincera”, aconselha Cristina de Lima.

Para tudo na vida existe uma maneira de falar mais adequada. No lugar de dar opinião ou impor seu ponto de vista, você pode explicitar palpite para a mãe fazendo sugestões como: ‘Você acredita que seria melhor fazer assim?’ ou ‘Posso sugerir uma coisa?’. Cada indivíduo tem suas particularidades. É assim com adultos, mamães ou não, e com os bebês que também são diferentes uns dos outros. A empatia ainda é o melhor caminho.

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Maternidade real: Confira filmes, séries e canais no YouTube que falam sobre o tema

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    ‘Mom-shaming’: mães sofrem com críticas e palpites sobre como cuidar dos filhos

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    joffi/Pixabay

    Maternidade real

    Ser mãe é um fardo e, além das alegrias, vem os dissabores e as dores – emocionais e físicas – dessa responsabilidade. Muitas mulheres estão compartilhando suas experiências nas redes sociais (confira reportagem aqui) para desmistificar o papel social atribuído às mulheres que se tornam mães. O E+ pediu para que algumas delas indicassem filmes, séries ou canais no YouTube que tratam do tema. Confira as dicas a seguir.


    Foto: joffi/Pixabay

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    Reprodução de 'Turma do Peito' / Trailers Planet / YouTube

    Turma do Peito

    A série, que está disponível na Netflix, foi uma indicação da escritora feminista Nana Queiroz, autora de Presos que Menstruam e Eu, Travesti. A produção traz a história principal de Audrey, mãe novata que ainda está se adaptando à ideia de ter um bebê para cuidar. Em paralelo, outras mães vivenciam a maternagem de formas diversas, mas igualmente difíceis. Assista ao trailer aqui.


    Foto: Reprodução de ‘Turma do Peito’ / Trailers Planet / YouTube

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    Reprodução do canal Hel Mother / YouTube

    Canal Hel Mother

    Dica da designer Thaiz Leão, criadora do @a_maesolo no Instagram, autora do livro ‘O Exército de Uma Mulher Só’. O canal no YouTube Hel Mother, a influenciadora Helen Ramos fala sobre sua experiência com a maternidade e como desmistificá-la. Em um dos vídeos, ela comenta sobre a importância e a responsabilidade de desromantizar a maternidade.


    Foto: Reprodução do canal Hel Mother / YouTube

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    Reprodução de 'Supermães' / What's on Netflix / YouTube

    Supermães

    E+ também faz uma indicação. Essa série, disponível na Netflix, segue a história de quatro mulheres que, após o fim da licença-maternidade, precisam conciliar filhos, trabalho e a pessoa amada. Relação entre mãe e filhos e depressão pós-parto são alguns dos temas tratados na produção. Veja o trailer aqui.


    Foto: Reprodução de ‘Supermães’ / What’s on Netflix / YouTube

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    Reprodução do canal Família Quilombo / YouTube

    Canal Família Quilombo

    Outra indicação de Thaiz Leão, esse canal no YouTube trata de família, maternidade e paternidade com um adendo: representatividade negra. Os vídeos do Família Quilombo abordam temas corriqueiros dentro da maternagem, como carga mental feminina e presença do pai, educação das crianças, desfralde e desejos dos filhos.


    Foto: Reprodução do canal Família Quilombo / YouTube

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    Reprodução de 'Tully' / Focus Features / YouTube

    Tully

    Esse filme foi indicado pela atriz Samara Felippo, que conversou com o E+ sobre como a cultura machista acaba, de forma inconsciente, levando as mulheres a acreditarem que a maternidade é a coisa mais importante na vida de uma mulher. Em ‘Tully’, Charlize Theron interpreta Marlo, mãe de três filhos, um deles recém-nascido, que vive uma vida muito atarefada. Certo dia, ela recebe a ajuda de uma babá, chamada Tully, e se surpreende com ela. Veja o trailer aqui.


    Foto: Reprodução de ‘Tully’ / Focus Features / YouTube

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    Reprodução do canal Canal Ana Paula Xongani / YouTube

    Canal Ana Paula Xongani

    O canal no YouTube Ana Paula Xongani também foi indicado por Thaiz Leão. Além de refletir sobre maternidade e infância, a autora do canal fala sobre moda e beleza. Racismo e representatividade negra também são debates nas produções dela.


    Foto: Reprodução do canal Canal Ana Paula Xongani / YouTube

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    Reprodução do canal Elisama Santos / YouTube

    Maternidade real no YouTube

    A plataforma de vídeos também deu algumas dicas. A jornalista Maíra Azevedo, do canal Tia Má fala sobre a relação entre mãe e filho. O canal Macetes de Mãe traz dicas práticas para ajudar no dia a dia das mães. Thalita Campedelli conta bastante sobre sua rotina sendo mãe de quatro filhos. Elisama Santos, escritora do livro ‘Tudo Eu – Confissões de uma mãe sincera’ tem diversos vídeos sobre mães e filhos em seu canal, e aborda muito bem nesse vídeo quando a relação com os filhos fica difícil.


    Foto: Reprodução do canal Elisama Santos / YouTube

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