Mundo pós-covid-19 | Opinião: É preciso se adaptar rápido, sim, mas sem cair na tentação do atalho

Com desembarque prematuro, o futuro precisará ser acolhido com mais naturalidade. A jornada para isso exige muita clareza e pouca certeza. Para as organizações, a adaptação rápida, tão desejada em um momento de transformação agressiva, vem como consequência em um ambiente orientado pela segurança psicológica. Além disso, fazer um bom diagnóstico da situação para saber aonde ir também ajuda a amenizar o impacto da crise.

Ecoa traz na série O Mundo Pós-Covid-19 um grupo de especialistas que, em depoimento a jornalista Mariana Castro, contam como imaginam uma civilização pós-pandemia a partir de temas como Tecnologia, Trabalho, Educação, Ciência, Alimentação, Cidades, Novas Economias, Espiritualidade, Meio Ambiente e Comportamento. Além de desenhar possíveis cenários para o que vem depois, eles falam sobre como as escolhas de agora podem contribuir para a construção de um futuro mais desejável.

Ler mais

Completamente certo porque não há como negar: em tempos de ruptura, não se pode esperar posturas diferentes das listadas acima. Se não adotá-las já soava descolado da realidade no período pré-coronavírus, imagine agora. Mas, paradoxalmente, quem diz isso está totalmente errado. Porque, em tempos de pandemia, a pergunta certa não é: quais são as habilidades do novo presente?

Afinal, todo mundo sabe.

A pergunta certa é: se todo mundo sabe quais são as habilidades do novo presente, por que algumas lideranças e empresas têm mais facilidade para adotá-las e outras simplesmente não conseguem absorvê-las?

Esse me parece um questionamento ignorado por boa parte das postagens do Linkedin e lives do Instagram. Portanto, com o intuito de ajudar, divido aqui duas bússolas para esse momento de pandemia. Uma focada na liderança e outro para a organização.

Para lideranças, minha sugestão é a FUTURALIDADE.

Futuralidade é um termo cunhado pela Aerolito e que condensa duas palavras: futuro e naturalidade. Porque é exatamente isso que temos que ter nesse momento: um acolhimento mais natural em relação ao futuro. Futuro este que estava com desembarque marcado para daqui muitos anos – mas que teve sua passagem antecipada.

A Futuralidade é uma jornada complexa, não linear e imprevisível. Por isso, demanda muita clareza e pouca certeza. Para se adotar a Futuralidade são necessárias três posturas:

  • Pensamento efetual. Ou, como explica Saras Sarasvathy no seu livro “Effectuation”: gerir com a cabeça de um empreendedor/empreendedora, e não de um gestor/gestora educado pela administração clássica.
  • Inversão temporal. Evitar a linearidade do planejamento que segue a ordem “Now, Next and Future”. Com um futuro prematuro, o correto agora é planejar pela ordem: “Now, Future and Next”. Ou não se dá conta do abismo entre esses três horizontes.
  • Pós-categorização. Para Bob Johansen, não podemos cair na armadilha de usar rótulos conhecidos para os conceitos, comportamentos e posturas que surgem pós-pandemia. Esse reducionismo faz com que o novo envelheça antes mesmo de nascer.

Mas voltamos ao ponto nevrálgico deste artigo: se todo mundo sabe quais são as habilidades do novo presente, por que algumas lideranças e empresas têm mais facilidade para adotá-las e outras simplesmente não conseguem absorvê-las?

Por falta de segurança psicológica.

Para falar do assunto, me apoio nos aprendizados que tive com minha sócia, Simone Gasperin. Ela estuda segurança psicológica há anos e sabe, como ninguém, implementá-la na prática.

Segurança psicológica é um termo cunhado pelo psicólogo William Kahn, ainda em 1990, mas que só ganhou reconhecimento recentemente a partir do trabalho da Amy Edmondson. Ela é mestre em psicologia, PhD em comportamento organizacional, professora em Harvard e estuda o assunto há mais de 30 anos.

Amy define segurança psicológica como “a crença compartilhada dos membros de uma equipe de que o grupo é seguro para assumir riscos interpessoais”.

Em outras palavras: é exorcizar os desnecessários conflitos pessoais a fim de priorizar os necessários conflitos de ideias.

Quando não há segurança psicológica, os profissionais pisam em ovos o tempo todo. E, intuitivamente, criam alternativas para se sentirem seguros. A mais comum delas é a adoção de um planejamento estratégico, rígido, de longo prazo, onde todos estejam comprometidos.

Soa familiar?

Pense comigo: num ambiente com segurança psicológica, qualquer pessoa se sente apta a atuar com autonomia. Se sente apta a tomar decisões ordinárias sem consultar a hierarquia. Se sou uma liderança, me sinto à vontade a criar um plano flexível e maleável, com possibilidades de mudança tal qual sinalize o mercado. A adaptabilidade vem como efeito colateral natural.

Mas se não há, a mente está sempre em conflito. O racional sabe que é preciso agir como manda a nova economia, mas o medo leva o corpo a operar sob a velha.

Já para organizações a sugestão é: rever o seu processo de transformação digital a partir de um diagnóstico mais criterioso. Ou: analisar a própria empresa a partir da nossa matriz de três eixos.

No eixo X, da expressão, podemos ser: não digitais, digitalizados ou pensadamente digitais. No eixo Y, da economia, podemos ser: economia do tangível, da presença ou do intangível. No eixo z, o do modelo de nego?cio, podemos ser: clássico, plataforma ou pós-digital.

De novo: não podemos reduzir o entendimento de transformação digital a um app, um e-commerce ou a uma operação no modelo de plataforma (a chamada Uberização). Não podemos cair no déja vu de acesso é maior que posse.

A conversa é bem mais profunda que isso.

Organizações que fizerem bons diagnósticos têm muito mais chance de sofrer impactos menores ao longo de toda essa crise. Entenderão onde estão e para onde devem ir. Moral da história: é hora de se adaptar rápido, sim. Mas, ao ser ágil, você não pode cair na tentação de pegar o atalho.

  • Tiago Mattos

    É co-fundador da Aerolito, futurista, faz parte do corpo docente da Singularity University e é professor convidado no TIP (Universidade Hebraica de Jerusalém)

    Imagem: Divulgação

Mundo sem fome

Se por um lado vimos a má administração do governo, por outro os cidadãos assumiram seu papel de poder e uniram forças para ajudar os mais vulneráveis.

Ler mais

+ Sobre a série

Ecoa ouviu pessoas de diferentes áreas para saber o que elas estão pensando. É um exercício para tentar dar uma cara a esse futuro que nos espera – e assusta.

Ler mais

No podcast Geração P, você pode acompanhar mais entrevistas, análises, bate-papos e histórias sobre os impactos da pandemia na sociedade, economia e cultura.

Leia Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *