Não há coragem sem medo

Hoje estou a escrever já pela noite dentro. Estou francamente cansada, com o corpo e a cabeça a pedirem que lhes dê tréguas e me deite. Mas hoje há muito a tratar, muito a concluir, muito a iniciar. É certo que atravessamos dias difíceis e a exigência ainda é maior, mas também é preciso tempo para pensar e é por isso que os meus dias são sempre longos e as noites diminutas. Escrevo sobre coragem e uma conclusão que hoje me é evidente: que é diferente de não ter medo. Vamos chegar a essa conclusão depois de uma breve análise a três temas centrais desta semana. E, um dia destes, vamos analisar porque é que sem coragem também não há liderança que mereça a pena ser seguida. O tema de hoje é a coragem, em diversas formas, porque é o fator-chave para enfrentarmos os próximos tempos.

1. Dia Internacional da Mulher

Esta semana celebrou-se o Dia Internacional da Mulher. Nunca é demais recordar que a igualdade de oportunidades e de reconhecimento é um valor que tem de ser preservado. Por muito que haja progressos nessa matéria ao longo de séculos e tenhamos variados exemplos de mulheres que são líderes de organizações relevantes, ainda as encontramos em minoria. Para além do mais, não é apenas nas empresas e nos “boards” que temos de ter esta preocupação com a igualdade – é nas camadas mais humildes e mais desprotegidas que, muitas vezes, as mulheres são mais negativamente discriminadas. São também essas que merecem que um jornal como o Negócios lhes dedique umas linhas em torno do dia 8 de março. Porque foi precisa a coragem de muitas mulheres que lutaram pela defesa dos direitos que eu tenho e exerço hoje. Na sexta-feira passada participei como “keynote speaker” no evento organizado pela Accenture a propósito desta celebração. A minha intervenção foi planeada, mas também bastante improvisada e a Executiva fez um excelente artigo sobre as diversas intervenções desse dia, cuja leitura recomendo. Porque a diversidade hoje exige de nós atenção em muitas outras frentes para além do género, como sejam a tolerância e o respeito pelas diferentes orientações sexuais, credos, raças ou origens sociais. Este último ponto, em particular, preocupa-me porque é menos identificável à primeira vista (ou não?…) e num meio empresarial em que tanto se pede às universidades que ensinem “soft skills”, há algumas diferenças de base que o mercado tem de saber acomodar e ter o mesmo papel pedagógico e formativo que as universidades devem ter, respeitando as origens de cada um. Temos de trabalhar melhor esta diversidade que por vezes se esconde, com medo, e fazê-lo de forma corajosa.

2. Homenagem e condecoração a Manuela Silva

A propósito de coragem, e na véspera do Dia Internacional da Mulher, foi justa a homenagem que foi prestada no ISEG, juntamente com o Grupo Economia e Sociedade, a que pertencia Manuela Silva, distinta ex-aluna, professora, doutora honoris causa e economista, que deixa uma marca de visão e persistência quanto à necessidade de contextualizar socialmente as decisões económicas, sendo precursora no estudo da pobreza e da coesão social, como o Senhor Presidente da República muito bem salientou, ao atribuir-lhe, a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem de Instrução Pública. O ISEG, e eu em particular, agradeço a gentileza da visita, do ato e das palavras que me dirigiu.

Manuela Silva soube o que foi ser recusada como assistente na universidade quando acabou o curso porque nas aulas era preciso “impor disciplina”, coisa que a uma mulher seria impossível. São curiosos os seus testemunhos mais recentes em que manifestava incredulidade ao facto de, à época, ter achado normal essa decisão do antigo ISCEF. Estamos hoje longe desses dias – no ISEG, certamente! Embora na universidade ainda encontremos resquícios em alguns circuitos, em certas reuniões e conselhos, do velho “boys will be boys”. As mulheres sabem-no e têm a coragem de lhes dizer que é só uma questão de tempo.

E por fim, temos o elefante no meio da sala – por poucas que sejam, tenho de ter a coragem de o referir nalgumas linhas. O mundo está assustado com um vírus para o qual ainda não há um eficaz combate em casos mais sérios e cuja capacidade de propagação é preocupante. É isso mesmo, há motivos para termos medo. Mas é assim a vida, temos de a viver, seguindo as recomendações oficiais, sendo cuidadosos connosco próprios e com os outros. Mas não podemos parar de viver – seja em casa, seja no trabalho. Há que investir e preparar melhores dias. É isto mesmo. Ser destemido de forma gratuita pode significar simplesmente ser-se inconsciente e isso não é a mesma coisa que ser corajoso/a. É quando sentimos medo e fazemos à mesma o que tem de ser feito que somos corajosos/as – às vezes sermos corajosos/as é somente mantermo-nos vivos/as em pleno, outras vezes é ir contra a maré. Mas tem de ser sempre agirmos em consciência, com a mais profunda convicção, não ceder ao medo, fazendo o que é certo. Sem matar a esperança, continuando a trabalhar e a viver – Coragem!

P.S. – Até à minha próxima crónica! Desejo muito que seja para celebrar a vida – e, já agora, uma taxa de crescimento positiva, fraquinha, aquela de que tantos ilustres se queixavam há um par de meses. Já tenho saudades.

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