O armário do CDS

O CDS sempre foi um Partido essencial na democracia parlamentar portuguesa. Soube representar a direita conservadora, democrata-cristã e até liberal, apaziguando a direita ressentida com a revolução, talvez até domesticando-a. Sem complexos, votou contra a Constituição de 1976, na minha opinião uma decisão errada, mas absolutamente válida e até enriquecedora da democraticidade da decisão constituinte. O CDS tem sido essencial – como o PCP o é noutro espectro – ao não surgimento, em Portugal, de Partidos de extrema-direita. Durante muito tempo tivemos por seguro que fosse verdadeira a convicção de que “à direita do CDS só uma parede”, como disse Paulo Portas.

O Chega apareceu, não do nada, mas apareceu com um programa que é conhecido, embora o tente continuamente esconder. Para além do programa que faria tremer qualquer democrata-cristão principiante, o Chega aplica ponto por ponto a escola Bolsonaro no que toca à cativação de eleitorado. A difusão de propaganda populista e de fake news é atividade diária de um Partido que se dedica a criar fantasmas, isto é, falsos inimigos, como o antirracismo (devidamente conotado com uma “agenda” extremista da extrema-esquerda) ou a “ideologia de género” e o “marxismo cultural”. Estes dois últimos “conceitos”, como sabemos, não querem dizer nada. O primeiro tem origem papal e foi aproveitado pela extrema-direita para combater a igualdade de género, numa guerra que se recusa a aceitar os últimos cem anos de avanço em matéria, precisamente, de estudos de género. O segundo tem origem no “bolchevismo cultural”, conceito inventado na Alemanha nazi para perseguir quem se imagina.

O último RASI, de resto, quando se refere ao crescimento da extrema-direita em Portugal, enfatiza que a extrema-direita portuguesa “deu primazia ao combate do que apelida como marxismo cultural, numa tentativa de sensibilizar a sociedade civil ao seu discurso e ideário extremista, com vista ao alargamento da sua base social de apoio”.

Acontece que o CDS (e aqui também o PSD) tem quem recorra ao Tribunal Constitucional por causa de um despacho que visa proteger as características sexuais dos jovens trans nas escolas, após uma campanha mentirosa a esse respeito cheia de gritos de “ideologia de género” por todo o lado.

Acontece que é o próprio líder do CDS que encosta a manifestação histórica antirracista ocorrida em Lisboa à extrema-esquerda e afirma que em Portugal há apenas “episódios” de racismo, esquecendo-se que o seu Partido votou favoravelmente um relatório parlamentar extenso que demonstra aos não convencidos o ponto da situação do racismo estrutural no nosso país.

Com o surgimento do Chega e com a ajuda de um líder do CDS que, enfim, não faz o que devia fazer e diz o que diz, há muita gente antes centrista que está a sair do armário.

São os militantes do CDS que há uns tempos não diriam da sua admiração por Salazar, do seu apego ao colonialismo português, do seu horror ao 25 de Abril, da sua convicção de mão ao peito que na pátria não há cá disso, o racismo, e que o movimento antirracista é coisa da extrema-esquerda ressabiada. São os mesmos que adorariam gritar ao lado de Trump “all lives matter”, porque sim, estão convencidos de que o movimento “blacklivesmatter” divide, e assim como o das mulheres.

Os CDS saídos do armário têm ódio, sempre tiveram, aos direitos LGBT, os quais, de resto, apelidam de “agenda”, “lóbi” e qualquer política de igualdade é, claro, parte da tal “ideologia de género”.

Estamos a falar das pessoas para quem antigamente é que era bom. Não se desejava a morte a ninguém, não é isso, vá, mas não havia espalhafato, a história portuguesa era incontestavelmente gloriosa, as comunidades negras e ciganas estavam sossegadas, sem reivindicarem a sua própria leitura da história – “releitura”, perdão -, as pessoas LGBT não nos entravam pelos olhos a dentro e, sobretudo, cada família “normal” educava as suas crianças como queria e a escola continuava, e bem, a perpetuar a desigualdade.

Estão todos a sair do armário.

É evidente. Custa que à frente do CDS esteja um facilitador.

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