O José Cutileiro foi-se hoje… estamos quase entrar no deserto

Depois de um bom almoço, num grande dia de verão já há muito ansiado, sentei-me com o meu whisky e antes de agarrar nos jornais com leitura atrasadas (sempre o Expresso), dei uma vista de olhos pelo presente através do Observador. Triste passagem, pois dei logo conta da morte do Embaixador José Cutileiro. Nunca tive o privilégio de o conhecer pessoalmente, embora tenha estado em inúmeras ocasiões com ele e de com ele conviver mesma sala ou no mesmo evento, mas sempre foi uma personagem que me cativou e deslumbrou. Por momentos reconheci a minha cobardia social, a dificuldade de combater convenções e a facilidade de pensarmos mais em nós do que nos outros. Isto vem a propósito da última vez que estive com o José Cutileiro. Aconteceu na Gulbenkian, no lançamento do livro de crónicas do Vitor Cunha Rego (outro príncipe também já desaparecido). Naquela sala, depois de ouvir o José Cutileiro, pensei: este homem é extraordinário, o verdadeiro aristocrata dos nossos tempos. Não lhe basta o incansável e fino humor, ou a representação invulgar de uma cultura imensa, nem sequer o domínio fácil da língua, seja a portuguesa ou a francesa e inglesa, que ainda nos dá de graça essa enorme virtude rara, a da sabedoria da vida e dos sentimentos. Fui cobarde, porque me levantei da cadeira, no fim da sessão da Gulbenkian, para lhe dizer que ele era um ser fora do comum, de uma linha que estava a desaparecer e que para mim era um privilégio enorme ter durante tantos anos sido alimentado pelos seus pensamentos, pela sua escrita nos obituários (só comparáveis aos do “Economist”), pelas suas intervenções públicas, pelo seu extraordinário humor, no fundo pela sua alma e saber. Contudo, chegado o momento, cumprimentei-o com toda a formalidade e na presença de tanta gente não tive coragem de lhe dizer o que nunca poderia deixar de ter sido dito.

O seu desaparecimento, a sua história, cheia de cruzamentos com pessoas inesquecíveis, fez-me lembrar que o tortuoso apagar de uma geração portuguesa nos deixará marcas muito difíceis de recuperar. Não sei se foi fruto de uma relação simplesmente binar em que o negativo soltou o positivo. Se foram os astros ou uma qualquer energia cósmica, ou apenas um simples desígnio do destino, mas a verdade é que a nossa nação beneficiou de uma geração nascida nos anos 20/30 e ainda, em parte, 40, do século passado, com caraterísticas únicas e de uma qualidade ímpar. Pessoas de diversos quadrantes (mas maioritariamente oposicionistas – esse também era o terreno natural para desabrocharem) que não nos fizeram aprender a arte de viver. Para quem o tempo era finito e teria sempre que ser gasto com urgência. A vaidade e o gozo estavam na reflexão, na critica, na palavra, no traço, muito mais que no efetivo poder, viesse ele do dinheiro ou dos “cargos”.

Vejo sempre com saudade a recordação da arte da conversa, da noite que não tinha fim para o Bernard da Costa, os Vaz da Silva, o Alçada. Para as memórias de quem nunca esqueceu o Zé Cardoso Pires, o Alexandre O’Neill. A lucidez fina, que não escondia uma certa vaidade, do Vasco (Pulido Valente) ou do Nuno Brederode. A coragem do Mário Soares ou a inteligência doce e generosa do Pomar. A ironia mordaz do Miguel Veiga. O brilhantismo do José Cutileiro ou o prudente pessimismo do Cunha Rego. Não eram só intelectuais, eram acima de tudo portugueses corajosos.

Homens e mulheres que fizeram quase sempre da noite de Lisboa o seu palco preferido, da conspiração e do segredo a utilização necessária. Muitos crentes e quase todos rapidamente ex-crentes. Desiludidos das morais vigentes, mas lutadores incansáveis pela liberdade, não só coletiva (onde muitos se empenharam) mas na liberdade do bom gosto, de não sermos condenados ao pequeno, ao mau, ao apenas ridículo; pelo contrário, abertos à herança do ocidente, da cultura, do prazer, da estética. Dessa coisa tão boa que é viver e gostar de o fazer.

Estes portugueses deviam ser lembrados. O seu legado é enorme e quem com eles teve o gozo de se cruzar sabe bem que, uns mais visíveis outros menos, contribuíram de forma decisiva para o progresso deste país e muito especialmente para o ensinamento de tantos e tantos que com eles conviveram e puderam apreciá-los.

Mais um copo por todos eles!

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