O meu filme dava uma vida. O que fizeram três mulheres portuguesas depois de o cinema as mudar para sempre

Vanda foi a heroína da sua vida quando a sua vida era a heroína. Não foi preciso fazer dela algo que não fosse, interiorizar a personagem, memorizar os gestos e as falas, ambientar-se ao décor, submergir em ficções. Era tão real quanto a sua realidade, uma metáfora etnográfica da Humanidade perdida, em busca da sua trip de paraíso. Tinha os cabelos longos e negros, corpo magro, olhos fundos, a beleza socorrida pela juventude. Era uma diva da decadência, sob o efeito da verdade.

A vida às vezes era muito simples, noutras, demasiado complexa. Nada que um toxicodependente não saiba. Vanda vivia num estado analgésico de sonolência e euforia, como num feitiço de bem-estar, que de vez em quando lhe causava comichões na pele, por causa da histamina. Na abstinência, até a morte lhe parecia legítima. A energia da sobrevivência era só uma: dose. Na sua dose, o resto desaparecia. Não era como se as coisas de repente se tornassem belas. Os telhados de chapa de alumínio não ficavam de cristal, as barracas não se tornavam chalés, não ficavam incólumes os trilhos insalubres do seu gueto. Não era como se os prédios em redor deixassem de definir linhas de fronteira e a dureza ficasse de algodão. Não se abriam planícies translúcidas, miríades psicadélicas, horizontes sem fim. Não era isso. Era uma melancolia opiácea, lenta e doce, que lambia as suas feridas.

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