Obcecada por segurança alimentar, China usa tecnologia até para criar carne

Poucos episódios são tão dolorosos para os chineses quanto “a grande fome“, nome dado ao período entre os anos de 1958 e 61 quando uma sucessão de erros de planejamento e más decisões políticas levou o país à severa escassez de alimentos.

O trauma causado pelo episódio, que se estima matou por inanição entre 15 e 55 milhões de pessoas, impactou profundamente as políticas públicas do país, que passou a priorizar a “segurança alimentar” de sua população.

Com a vertiginosa ascensão econômica da China nas décadas de 1990, 2000, e 2010, cresceu enormemente também a demanda por comida, já que pessoas com melhor renda tendem a… comer mais. O fenômeno beneficiou fortemente o Brasil, grande exportador de carne, soja, café e frutas.

O recente impacto da pandemia de covid-19, que desestruturou cadeias logísticas no mundo todo, no entanto, fez a China temer, mais uma vez, não ter o fluxo regular de alimentos importados para seu país, de forma que 2020 voltou a ser o ano de cuidar da “segurança alimentar”.

Para uma população rica, numerosa (e faminta), não há como assegurar produção agrícola suficiente sem fortes investimentos em inovação e tecnologia. Um estudo, publicado esta semana, pelo fundo de venture capital AgFunder, mostrou que, ao longo de 2020, a China saltou para a 2ª colocação entre os países que mais investem em foodtechs e agrotechs, atrás apenas dos Estados Unidos. Até 2019, este setor não era uma prioridade no país.

O estudo analisa que, apenas nos últimos seis meses, 24 startups chinesas receberam a injeção de US$ 1,2 bilhão. A maior parte delas busca “digitalizar” o campo, elevando a produtividade de cada alqueire agriculturável na China.

Um exemplo disso é a McFly, startup dedicada a implementar soluções de big data e inteligência artificial no campo chinês. A análise de dados climáticos, da qualidade do solo, do número de horas de Sol sobre a terra a cada dia, permitiria elevar a produtividade das colheitas de arroz, milho e outras culturas em até 25%.

Muitas outras, como MissFresh e TongCheng, dedicam-se a segmentos mais convencionais, como melhorar a logística entre campo e cidade, reduzindo desperdícios e perdas com o transporte.

Empresas como XAG, por exemplo, usam drones para mapear árvores onde a colheita “esqueceu” um fruto no pé, identificar arbustos doentes ou mesmo aqueles atacados por insetos.

Um dos setores mais brilhantes, no entanto, é o que promete criar carne (de verdade) a partir da replicação de células animais em laboratório, dispensando a criação (e abate) de porcos, galinhas e bois. Esforços para sintetizar carne (de mentira) a partir de soluções proteicas à base de vegetais também têm recebido grande atenção dos fundos de capital de risco na China, conforme demonstra o relatório da AgFunder.

O investimento em tecnologia é visto como “essencial” para elevar a produção doméstica de alimentos, mas não é o único esforço chinês para proteger sua população.

Outro esforço é a diversificação de fornecedores, diminuindo a dependência chinesa de parceiros como Estados Unidos, Brasil e Austrália e apostando mais nos vizinhos do Sudeste da Ásia e, em particular, em fazendas na África.

O tema é tão quente na China que, embora todas as mentes e corações estejam tomados pelo “fator covid”, Pequim encontrou espaço para tornar o ano de 2020 também o “ano da luta contra o desperdício de alimentos”.

Campanhas de comunicação na mídia, nas escolas e em redes sociais exortam os chineses a comerem menos, cuidar do peso e, sobretudo, evitar os tradicionais banquetes em almoços de família, quando por tradição cultural, se oferece grande fartura de alimentos que, inevitavelmente, acabam parcialmente desperdiçados.

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