Opinião: A transparência de um banco sem paredes

Por Márcia Krus Policarpo (*)

Imagine um banco sem paredes, onde podemos observar cada conta criada e cada transação efetuada. Uma instituição financeira onde conseguimos analisar o fluxo de dinheiro. Esta possui a sua própria moeda e é controlada simultaneamente por 21 entidades independentes. De tempo em tempo estas entidades, responsáveis por validar as transações e por guardá-las em histórico, podem ser substituídas através de uma eleição efetuada pelos titulares da moeda.

De uma maneira resumida é assim que a EOS opera, sendo esta um dos sistemas blockchain mais proeminente da atualidade. As entidades independentes representam os produtores eleitos que trabalham em prol do seu bom funcionamento. São 21 os produtores que controlam todo o fluxo de transações. Mas porquê 21, e não 20 ou 22? Em boa verdade, poderia ser qualquer um desses números, mas não um qualquer. A finalidade de haver várias entidades independentes é obter um sistema transparente, onde a distribuição de poder encontra-se descentralizada, estando imune a conluios, interesses e influências.

Na esfera das blockchains, a transparência e a descentralização andam de mãos dadas e são cruciais, pelo que será exatamente este o tema de foco neste artigo.

Não existe nenhuma fronteira clara que separe centralizado de descentralizado, o que leva a um grande debate sobre este assunto. De acordo com Vitalik Buterin, co-fundador da blockchain Ethereum, existem três tipos de centralização: política, arquitetural e lógica.

A centralização política determina se existe uma entidade no topo da hierarquia que tem o poder de decisão. A centralização arquitetural determina a quantidade de participantes no sistema. A centralização lógica determina se o funcionamento é único, em paralelo, ou em sequência.

Podemos analisar qualquer sistema blockchain e determinar quais os seus níveis de descentralização relativamente a estas três métricas.

Irei fazer uma comparação entre a Bitcoin, a blockchain mais conhecida, e a EOS, a blockchain base sobre o qual o projeto BlockBase, que me encontro a desenvolver, assenta.

Outrora, a EOS tinha uma entidade que assentava na descrição de centralização política, o EOSIO Core Arbitration Forum (ECAF), que era responsável por resolver disputas. Todavia, apesar da decisão estar incumbida a esta instituição era necessário que os produtores a aceitassem e a pusessem em prática. A partir do momento em que a ECAF foi destituída, deixou de ser válido alegar que a EOS era centralizada politicamente. Tal como todas as blockchains, quem tem o poder é a maioria.

Apenas 21? De acordo com uma estimativa do website Buy Bitcoin Worldwide, a Bitcoin tem atualmente 1.000.000 de produtores. Comparando estes dois números, o número de produtores da EOS pode parecer um “pouco” reduzido.

Dentro da comunidade das criptomoedas a EOS é alvo de crítica por esse motivo. Muitos consideram que 21 produtores é um número insuficiente e, por isso, consideram a plataforma EOS um sistema centralizado arquitecturalmente.

Todas as blockchains são centralizadas logicamente, no termo em que o sistema funciona como se fosse uma única máquina e há um estado de concordância entre todos os participantes.

Na minha opinião existe mais um tipo de centralização, a centralização geográfica que define a dispersão das máquinas produtoras. Quanto maior a descentralização de localizações maior a tolerância a problemas regionais. Segundo o website EOS Authority atualmente dos 21 produtores, 10 estão localizados em diferentes localizações dentro da China, enquanto que os restantes estão espalhados por vários países como Ucrânia, Japão, Singapura e Inglaterra. Isso significa que aproximadamente 48% dos produtores da EOS estão num só país. No caso da Bitcoin, segundo o Buy Bitcoin WorldWide a 28 de janeiro de 2019, 71% do hashrate localizava-se na China.

Das informações anteriores pode-se afirmar que Bitcoin é mais centralizada geograficamente e menos arquitecturalmente que a EOS. Seria possível a EOS ficar mais descentralizada nesta última vertente?

Seria, se o número de produtores ativos aumentasse. Todavia esse incremento iria causar latência na velocidade de transações. A EOS é uma blockchain designada para alojar aplicações, por esse motivo, é necessário que tenha uma alta velocidade de transações e uma grande escalabilidade, o que torna a ideia de aumentar o número de produtores ativos imprópria.

Na EOS, os produtores são desincentivados a agir maliciosamente. Qualquer ato negativo de um produtor está exposto à comunidade e, por conseguinte, seria rapidamente identificado. A sua ação seria recusada pelos restantes produtores e o ator malicioso seria votado para sair. Existem muitos produtores de EOS não ativos que ficariam satisfeitos por tomar o seu lugar. Se porventura os restantes aprovassem a ação, o mais provável a acontecer seria a desvalorização da moeda que está diretamente ligada à perda de lucro de todos os produtores.

Num banco regular para além dos bens monetários é necessário depositar confiança. Numa instituição sem paredes também há esta inevitabilidade. Neste caso a confiança é guardada não nos produtores em si, mas no seu interesse de obterem lucro.

(*) Blockchain Developer, BlockBase 

Leia Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *