“Precisamos de retomar a vida”

Uma “prova de confiança”. É assim que Tim, músico dos Xutos & Pontapés, define esta edição da Festa do “Avante!”. “Não tem a ver com o que vamos ganhar, mas sim com a experiência coletiva que vai ser feita. Se o ‘Avante!’ não correr bem, dificilmente qualquer outra coisa irá correr bem, e a perspetiva fica negra. Por isso é que isto tem de acontecer”, afirma.

A banda de rock será cabeça de cartaz do último dia, amanhã: os Xutos estão a preparar um concerto “normal”, e é exatamente por isso que o espetáculo pode ser especial, explica o seu vocalista. “Já voltámos a fazer concertos com público sentado e o ambiente é diferente, mas a música até ganha. Em Gaia não fizemos nada de especial, e no fim as pessoas disseram que aquele tinha sido um alinhamento para ver sentado — mas o alinhamento foi o mesmo de sempre!” Ou seja, nestas condições, a música pode ajudar a experiência coletiva a tornar-se também uma “experiência mais pessoal”. Tim não foge à questão política: “O PCP foi contra toda a opinião corrente ao manter a festa, e deu o flanco a uma série de ataques, como a [tentativa de] providência cautelar.”

O pianista Mário Laginha, que tocou no primeiro dia do evento juntamente com o fadista Camané, diz que o tema tem sido “muito espremido” por se tratar do PCP, e distancia-se do lado político: “Quero muito que aconteçam concertos, a Fórmula 1, Fátima, tudo, e que as pessoas tenham cuidado. Esta guerra de ‘a minha sim [pode acontecer], a tua não…’ não sinto as coisas assim.”

Quanto às questões sanitárias, o pianista nota que “tudo deve ser discutido e isso é saudável”, e lembra que “outros países estão a confrontar o problema com diferentes opções”. “Vi no outro dia imagens de um concerto de ópera, creio que em Viena, em que os lugares estavam todos preenchidos, com as pessoas de máscara”, diz Laginha. Na sua opinião, está-se a subestimar o civismo dos jovens. “Aquele argumento de ‘já fui à festa, sei como é que as coisas são’ não faz sentido. Claro que foi assim, mas [antes] não havia limitações algumas. Agora é diferente. Quero acreditar que os jovens sabem isso e vão cumprir”, considera. “Vou porque vou tocar em segurança. Quero muito continuar saudável, porque se ficar infetado deixo de trabalhar.”

Mais concertos para todos é também o foco de Pedro Valdjiu, mentor da banda Blasted Mechanism, que atua hoje no palco 25 de Abril da Atalaia: “O sector da cultura já sofreu muito e precisa de trabalhar. Este clima de ódio não faz sentido. Nós não temos nenhuma cor política e só queremos dar o máximo no concerto, como sempre fazemos.” Quase todos os artistas que vão participar no “Avante!” contactados pelo Expresso reforçam esta ideia: o tema tornou-se tão “tóxico” pelas discussões políticas “sem sentido” que preferem não acrescentar “ruído” à discussão.

“Tenho 75 anos, se não me sentisse seguro não ia”

“Esta campanha vergonhosa é significativa do espírito que há relativamente ao PCP. Tenho estado na Feira do Livro [de Lisboa] todos os dias e estou convencido que, com as limitações que a DGS colocou, o ‘Avante!’ não terá tanta gente. E não vi nenhum protesto pela realização da feira.” A opinião musculada é de Zeferino Coelho, histórico editor da Caminho, que irá estar na Quinta da Atalaia hoje, para moderar um debate com o escritor João de Melo. “Costumo levar mais autores, este ano só levo um, e a imposição partiu do próprio PCP”, detalha.

O ex-editor de José Saramago assinala a “importância política” que o “Avante!” terá para o partido, mas considera que a sua realização ultrapassa essa prova de força. “Eu tenho 75 anos, faço parte do grupo de risco e estou perfeitamente tranquilo. Se não me sentisse seguro não ia. Se as atividades forem feitas com cuidados, ainda bem que são feitas. Porque é que tem estado tanta gente na Feira do Livro, mais do que em anos anteriores? Porque as pessoas precisam de sair à rua e retomar a vida. Temos todos de fazer isso. Se nos fecharmos em casa cheios de medo e pavor vamos pelo mau caminho.” Tim evoca a nova canção de Sérgio Godinho, ‘O Novo Normal’, lançada há poucos dias: “É mesmo isso, um novo normal. Aprender a viver com o vírus. Temos de ter convívio, sair à rua, mas de forma disciplinada e com respeito uns pelos outros.”

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