Quatro meses de crises, vírus e subidas

Mais de quatro meses depois, regresso à escrita neste espaço de opinião. Aos que escreveram, agradeço a preocupação pela minha ausência mas tal se deveu apenas à minha decisão de deixar de ser analista da Dif Brokers e tornar-me analista independente, o que obrigou a alguns formalismos processuais junto da CMVM para que pudesse estar, de novo, habilitado a escrever sobre mercados. Portanto, o nosso caminho não fica por aqui.

Durante estes meses, multiplicaram-se os acontecimentos com impacto na economia global e portuguesa mas, na verdade, o padrão dos mercados não sofreu grandes alterações. O surgimento do coronavírus criou medo em alguns investidores mas as principais bolsas mundiais continuam a bater recordes e estão em máximos históricos. Um “bull market” é difícil de ser travado por muito que, nos últimos anos, centenas de analistas e milhões de investidores tenham prognosticado a sua morte. Como costumo dizer, ele só termina quando quase ninguém acreditar nisso.

Quando aqui escrevi a minha última análise sobre o PSI-20, o índice tinha dado um primeiro sinal de força, quebrando a zona de resistência entre os 5.000 e os 5.050 pontos, o que me fez vestir de novo o fato de touro na bolsa portuguesa. Foram meses entusiasmantes no mercado nacional? Não. Longe disso. Continua a ser frustrante ver os principais índices mundiais estarem em máximos históricos e o PSI a subir a um ritmo bastante lento, ainda longe do máximo dos últimos dois anos, nem valendo a pena sequer a comparação com os seus máximos históricos, pois teria de subir quase 200% para atingir esse valor!

Apesar de o desempenho da bolsa portuguesa estar longe de ser entusiasmante, a verdade é que se tem recusado a cair e vai continuando a criar uma tendência ascendente que já dura há mais de 6 meses, com os touros claramente no controlo da situação. Como podem reparar no gráfico, o PSI criou uma linha de tendência ascendente que tem servido de sustentação para as subidas. Sempre que o índice retraiu para junto dessa linha, os touros apareceram e voltaram a empurrar as ações portuguesas para cima. Enquanto essa linha de tendência ascendente se mantiver inviolada, o mercado nacional continua sem dar qualquer sinal de fraqueza.

Na semana passada, as subidas pararam – como seria de esperar – na zona de resistência entre os 5.420 e os 5.450 pontos. É uma resistência muito forte e que serviu como tecto para o PSI em agosto de 2018 e, sobretudo, travando em maio do ano passado as fortes subidas que a bolsa portuguesa vinha a ter nos primeiros meses de 2019. É, por isso, natural, que o índice tenha tido agora dificuldade em quebrar essa resistência numa primeira tentativa, sobretudo com o índice “sobrecomprado”. Se o PSI conseguir quebrar essa forte zona de resistência, será uma vitória de grande importância para os touros, pois o índice fica com muito espaço para subir.

Tudo parece ir ao encontro do meu otimismo, em termos técnicos. No entanto, nem tudo me agrada. As mais recentes subidas do PSI estão a ser feitas à custa da EDP e da EDP Renováveis que têm tido um desempenho em bolsa notável. Ações muito importantes para o índice como o BCP ou a Sonae têm tido dias complicados e acredito que para o PSI quebrar, consistentemente, a próxima resistência e poder embalar para uma nova fase do “bull market”, necessita que outras ações acordem do sono profundo em que se encontram. Até porque quem acompanha habitualmente as minhas análise sabe que, historicamente, Sonae e PSI dançam sempre ao mesmo ritmo.

A forma como a EDP e a EDP Renováveis têm subido quase sem respirar, a um ritmo vertiginoso, não é normal nos últimos anos no mercado português. Faz-me recuar duas décadas para trás. Subidas deste género, normalmente indiciavam entradas de fortes institucionais estrangeiros que não têm problema em comprar 4 ou 5% mais caro, desde que isso lhes assegure ficar com a posição que pretendem. Será um indício do regresso dos estrangeiros ao nosso mercado ou algo esporádico nas duas empresas, até porque começam a ter um papel importante no mercado internacional e numa guerra entre os Estados Unidos e a China no setor?

É evidente que também a mim me preocupa a incapacidade de o PSI voar quando as principais bolsas mundiais batem recordes. Mas não alinho com aqueles que estão fora do mercado com medo que o “bull market” lá fora termine e Portugal caia por arrasto. É evidente que isso é uma hipótese e vai acontecer fatalmente, mas há quantos anos se decreta o fim do “bull market” internacional e ele teima em prosseguir? Bem sei que não é normal um “bull market” já durar há mais de 10 anos mas ninguém deve decretar a sua morte antes de qualquer sinal de fraqueza, porque só os Ornatos é que podem cantar “que o mundo acaba amanhã”.

Por tudo isto, apesar das desconfianças, continuo com o fato de touro vestido com os olhos nos suportes. Enquanto não forem quebrados não vou mudar a minha posição nem sofrer por antecipação. Crises, vírus e terrorismo não mudam a minha visão sobre o mercado. Serão sempre os gráficos a fazê-lo.

Artigo escrito em 21/02/20 às 12h35

Fonte: https://live.euronext.com/pt/

Ulisses Pereira não detém qualquer dos ativos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui, onde também pode ser consultada a lista com as anteriores análises de Ulisses Pereira.

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