Sérgio Moro demite-se do cargo de ministro da Justiça do Brasil

Os rumores tinham começado a surgir na quinta-feira: se o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, decidisse exonerar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Leite Valeixo, escolhido pelo ministro da Justiça, o próprio Sérgio Moro poderia demitir-se. Esta sexta-feira, foi o próprio Moro que confirmou que renunciava ao cargo, citando, entre as razões para esta decisão, a necessidade de os vários ramos do Governo permanecerem autónomos, coisa que, na sua opinião, não está a acontecer com Bolsonaro.

“Entendi que não tinha como aceitar essa exoneração e tenho de preservar a minha biografia e o meu compromisso”, disse o juiz. Moro garante ter tido o apoio de Bolsonaro na maioria dos seus esforços, mas explica que a partir do meio de 2019 “começou a existir uma insistência do Presidente na troca do comando da Polícia Federal”.

Contando a história da escolha das pessoas na PF, e de como tentou impedir nomeações políticas durante o último ano e meio, Moro referiu várias vezes a expressão “interferência política” para qualificar as ações de Bolsonaro. Quando as exigências do Presidente chegaram à substituição do diretor-geral, Moro admite que aceitou essa possibilidade, mas pediu uma razão. Esta não lhe foi dada. “Estava claro que estava a haver uma interferência política na PF, o que gera uma ferida na credibilidade, não na minha, na do Governo e na da própria Polícia Federal.”

Moro ressaltou ainda que essa interferência na PF não ocorreu nem durante dos governos do Partido dos Trabalhadores: “Foi garantida a autonomia da PF nos trabalhos de investigação. O Governo na época tinha inúmeros defeitos, crimes gigantescos de corrupção e foi fundamental a manutenção da autonomia da PF, que permitiu que resultados fossem alcançados. “Imagina se durante a própria Lava Jato o ministro, a então presidente Dilma e o ex-presidente [Lula da Silva] ficassem ligando para as autoridades para obter informações?”, perguntou.

Bolsonaro prefere os seus homens

Moro disse várias vezes que Bolsonaro lhe confirmou que a sua intenção era mesmo colocar na PF “alguém a quem ele pudesse ligar, colher informações, colher relatórios de serviços de informações e realmente não é papel da PF prestar esse tipo de informações”. Mesmo assim, o ministro demissionário acedeu a procurar outro nome, desde que escolhido igualmente por si e consultando a polícia.

“Para evitar uma crise durante esta pandemia, eu sinalizei que então se ele queria substituir, deveríamos substituir o Valeixo por alguém da continuidade, alguém técnico, alguém de dentro da polícia, indicado pela polícia. Não obtive resposta porque o Presidente tem preferência pelos seus próprios nomes”, acusou.

Bolsonaro perde um nome de peso do seu Governo e adensam-se as suspeitas de que mesmo os seus apoios mais antigos possam estar a fraquejar. Moro é visto como herói pela maioria dos apoiantes do Presidente. É o juiz que foi atrás de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores, tendo sido o principal responsável por evitar uma recandidatura do antigo chefe de Estado (2003-2011) nas presidenciais de 2018, que Bolsonaro venceu.

Moro marcou pontos na opinião publica como principal juiz na tentacular operação Lava Jato, de investigação a teias de corrupção que abrangem todo o espectro político brasileiro. Recebeu críticas ao aceitar ser ministro de Bolsonaro, pois tinha tido evidente influência no êxito eleitoral deste último.

Na última sondagem da Datafolha sobre a popularidade dos políticos brasileiros, Moro aparece à frente do próprio Presidente com 53% dos brasileiros a afirmarem que o seu trabalho à frente do Ministério da Justiça é de bom a ótimo. A mesma pergunta gerou 30% de respostas positivas para Bolsonaro.

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