VivaBem | ‘No meio da pandemia, minha filha ganhou um fígado e criou asas’

Nos últimos três anos, a diarista Danielle Conceição da Costa Silva, 35 anos, viu a autonomia da filha Ana Carolini, de 17 anos, encolher até se limitar ao comprimento do fio do tubo de oxigênio. Na festa de debutante, em Cuiabá, a garota arrastava o acessório na valsa com o pai. Sem ar, faltaria energia para um passo tímido.

Os pulmões de Ana Carolini sofriam em decorrência da hepatite autoimune, doença caracterizada pelo ataque do sistema de defesa ao fígado. Depois de passar quatro anos à espera de um transplante hepático, a situação da garota se agravou. Com os pulmões seriamente comprometidos e encefalopatia (intoxicação cerebral), ela passou a ser um caso prioritário na fila.

No final de maio, surgiu um órgão compatível. E, junto com ele, um dilema médico em meio às perdas e incertezas provocadas pela pandemia de covid-19. Se a garota tinha um comprometimento pulmonar, seria prudente submetê-la a um transplante (e às drogas imunossupressoras necessárias para evitar rejeição ao órgão) no momento em que as infecções e mortes por um vírus pouco conhecido cresciam sem sinal de trégua?

Era preciso agir, principalmente em um momento de queda abrupta das doações de órgãos no país. “A oportunidade de cura da Ana era aquela. Protelar o transplante poderia fazer com que ela perdesse uma chance única”, diz o cirurgião Eduardo Antunes da Fonseca, médico assistente do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Tensão e alívio

Ana Carolini - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal

Imagem: Arquivo pessoal

Existia uma certeza: o doador não tinha o novo coronavírus. Essa possibilidade é descartada pelo Sistema Nacional de Transplantes antes da oferta de órgãos para doação. Não havia tempo, porém, de esperar o resultado do teste de covid feito pela paciente. O fígado precisa ser transplantado em até 12 horas após a retirada do doador.

A solução foi colocar a paciente em uma zona intermediária do hospital – longe dos doentes com covid e de outros comprovadamente não infectados. O transplante foi feito sem que os médicos soubessem se a garota tinha o vírus.

“Foi um desafio”, diz Fonseca. “Ficamos apreensivos porque seria muito ruim fazer um transplante em uma paciente com covid”. Só depois da cirurgia os médicos puderam respirar aliviados. Ana Carolini não tinha o vírus.

“Aos 17 anos, uma fase de grande vitalidade, ela não tinha energia para nada”, afirma o médico. A troca do fígado fez com que a doença pulmonar fosse regredindo progressivamente. Hoje Ana é considerada curada. “Se continuar tomando os medicamentos para evitar rejeição, ela terá uma qualidade de vida excelente. Poderá ter filhos e, quiçá, conviver com seus netos”, afirma o cirurgião.

Desde o nascimento, em Cuiabá, Ana Carolini apresentava sinais de que algo não ia bem. Era pálida, tinha a barriga inchada, sentia dores abdominais. Quando completou 4 anos, a família veio a São Paulo para tentar conseguir um diagnóstico definitivo. A equipe do Sírio-Libanês diagnosticou a hepatite autoimune e passou a controlá-la com medicação. Em 2016, com o agravamento da doença, ela entrou para a fila do transplante.

“Era muito triste ver minha filha precisar de oxigênio 24 horas por dia”, diz Danielle. “Sem conseguir tomar banho, pentear o cabelo, correr, brincar, fazer tudo o que uma adolescente faz”.

Danielle fez de tudo para conseguir uma doação intervivos. Ela própria não pôde ser a doadora. A quantidade de fígado que os médicos poderiam retirar dela era insuficiente para salvar a filha. Danielle trouxe alguns parentes e vizinhos de Cuiabá a São Paulo. Todos fizeram os exames e também foram descartados.

“Eu me senti fracassada”, diz ela. “Foi muito difícil aceitar que eu não era capaz de salvar minha filha”. Hoje, quando a vê subindo e descendo escada, pulando e dançando, Danielle pensa na família que autorizou a doação. “Agradeço a essas pessoas, de coração. No meio da pandemia, minha filha ganhou um fígado e criou asas”, diz ela.

Ana Carolini sente que começa a viver de verdade. “Não tive adolescência. Não pude andar de bicicleta, dançar, sair com as minhas amigas. Hoje eu posso”, afirma. “Parece que agora sou elétrica. Minha mãe diz que botaram uma bateria em mim”, diz, sorrindo.

Ana Carolini é uma das pacientes da Escola de Transplantes do Hospital Sírio-Libanês. “Esse projeto proporciona atendimento de excelência em procedimentos de alta complexidade, como transplantes de fígado, reabilitações intestinais e intervenções cardíacas, a uma parcela vulnerável da nossa população”, afirma Tadeu Thomé, coordenador da escola.

“Além disso, essa iniciativa qualifica profissionais de saúde com o objetivo de diminuir os vazios assistenciais do SUS”, diz. O trabalho é realizado com recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS). Como contrapartida de isenção fiscal concedida pelo Ministério da Saúde, cinco hospitais filantrópicos considerados de excelência desenvolvem projetos de melhoria das condições de saúde da população.

Há um ano e dois meses em São Paulo, Ana Carolini segue hospedada com a mãe em uma casa de apoio. Pretende voltar a Cuiabá assim que terminar de fazer exames médicos. Tem saudade do pai e do irmão de 11 anos. “Passei muito tempo no meu quarto porque o fio do oxigênio era curto”, diz. Agora nada a impede de abrir as asas.

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