A tecelagem artesanal das redeiras do Limpo Grande, distrito rural de Várzea Grande, saiu dos quintais da comunidade para ganhar projeção nacional a partir da participação da Associação das Redeiras de Limpo Grande – Tece Arte – em editais e programas da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT).
O ponto de virada foi o edital de Aceleração do Crescimento, o MOV_MT, iniciativa da Superintendência de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secel, que abriu caminho para colaborações com estilistas, participação em feiras, aumento das encomendas e valorização de uma técnica tradicional considerada única em Mato Grosso.
Criada em novembro de 2021, a associação nasceu com 15 mulheres e hoje reúne 53 redeiras. Segundo a presidente, a administradora Jilaine Maria da Silva Brito, a formalização foi decisiva para impedir que a tradição, oriunda de indígenas da etnia Guanás, desaparecesse.
“A nossa cultura estava quase em extinção, porque não tínhamos meios de vender. A associação nasceu justamente para fazer esse resgate. Hoje temos encomendas, parceiros e um centro cultural na comunidade, que recebe turistas e pessoas que vêm conhecer e comprar as peças”, afirma.
Jilaine aprendeu a tecer aos 12 anos, com a mãe, assim como a mãe havia aprendido com a avó. No Limpo Grande, a técnica sempre foi transmitida entre mulheres, de geração em geração. Enquanto os homens trabalhavam na roça, as filhas acompanhavam as mães no tear. “É a nossa identidade. A técnica foi passada de mãe para filha há gerações. Eu sou da terceira geração”, conta.
Antes da associação, muitas mulheres haviam deixado de produzir por falta de mercado. Havia casos em que uma rede demorava até um ano para ser vendida. Com a organização coletiva, a divulgação nas redes sociais e a participação em políticas públicas, a realidade começou a mudar.
De acordo com Jilaine, antes eram vendidas cerca de 10 redes por ano. Em 2025, a associação chegou a vender 80 redes, além de outras peças como xales, bolsas, saídas de banho, biquínis, entre outras peças.
Os valores das redes variam de R$ 2,3 mil a R$ 5,5 mil, sendo as mais vendidas em torno de R$ 4,5 mil. Para a presidente, a renda movimentada pelas encomendas tem transformado a vida das artesãs. “Tem redeira que já me falou que, com o dinheiro do trabalho, comprou tijolo para construir a casa. Outras compram móveis, fazem uma economia, realizam sonhos. A associação também realiza sonhos”, destaca.
O edital MOV_MT foi um dos principais marcos dessa trajetória. Como finalista do programa, Jilaine participou de um intercâmbio no Rio de Janeiro, onde conheceu a estilista Isabela Capeto. O encontro resultou na primeira colaboração da associação com uma estilista nacional.
“Nós fizemos bolsas para ela, com desenhos autorais, e foi um sucesso. Ela vendeu rápido na loja dela no Rio. Até hoje, quando sai alguma reportagem sobre a gente, as pessoas perguntam sobre essa parceria. Esse edital abriu portas e deu visibilidade para nós”, destaca.
A visibilidade alcançada também levou as redeiras a uma parceria com o estilista Amir Slama. Pela primeira vez, a cultura mato-grossense do Limpo Grande chegou a São Paulo Fashion Week, uma das principais vitrines de moda do país, com peças desenvolvidas a partir da técnica tradicional das redeiras. “Quando recebi o e-mail, eu nem acreditei. Foi um marco para nós. Levar a nossa cultura para a maior vitrine de moda do país significa muito”, relata Jilaine.
Além do MOV_MT, a associação também foi contemplada em outros editais, sendo o último deles voltado à elaboração de um inventário cultural da Secel-MT, que permitirá a criação de um acervo digital sobre a técnica única das redeiras da região. O material vai reunir depoimentos, vídeos, registros do processo de produção e o vocabulário próprio do ofício.
“Esse acervo vai marcar a história da associação. Vamos mostrar o tear, a batedeira, a forma de contar os pontos e todo o processo de produção de uma rede feita com a nossa técnica. Quem quiser conhecer a nossa técnica vai poder acessar esse conteúdo online”, explica.
A técnica utilizada pelas redeiras é a tecelagem em ponto cheio. Diferente de outros trabalhos manuais, as peças não têm avesso: o desenho aparece dos dois lados da mesma forma. As referências mais procuradas vêm do Pantanal mato-grossense, com araras, tucanos e outros elementos da fauna e da identidade regional. “O nosso trabalho é único e exclusivo. Mesmo quando alguém encomenda uma rede parecida, ela nunca fica igual, porque cada ponto carrega a essência da redeira que produziu”, ressalta Jilaine.
Superintendente de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secel-MT, Keiko Okamura destaca que editais realizados pela Secel-MT desde a pandemia, por meio do MT Criativo, permitem transformar política pública em resultados.
“Assim como o Programa de Aceleração, o Move_MT, demostra impacto real no desenvolvimento econômico e sustentável desses agentes e das comunidades e territórios onde eles acontecem. São esses resultados que nos mostram o potencial da economia criativa do nosso estado, e que estamos trilhando o caminho certo”, avalia.
Mãe de Jilaine, a redeira Júlia Maria da Silva, de 68 anos, representa a memória viva dessa tradição. Ela aprendeu a tecer aos 15 anos, observando a mãe trabalhar no tear. Na infância, dividia a rotina entre a roça e a tecelagem. “Nós trabalhávamos na roça cedo, plantando mandioca, feijão, arroz. Quando o sol esquentava, voltávamos para casa e, de tarde, íamos tecer. Foi assim que fomos criadas”, relembra.
Na juventude de Júlia, as redes não eram produzidas para venda, mas para uso da própria família, em uma época em que muitas casas não tinham cama. O algodão era plantado, descaroçado e fiado manualmente. “Naquela época ninguém vendia rede, era para dormir, porque ninguém tinha cama. A gente plantava algodão, torcia no fuso. Era uma dificuldade”, conta.
Com o passar dos anos e a falta de compradores, Júlia chegou a parar de tecer. A criação da associação e a retomada das encomendas fizeram com que ela e outras mulheres mais velhas voltassem ao tear. “Nós já tínhamos desativado. Com a popularização, voltamos a tecer. Melhorou muito. Hoje a gente consegue guardar uma economia. Se eu preciso fazer um exame, tenho de onde tirar”, destaca.
Para Júlia, a associação também representa orgulho familiar. Mãe de Jilaine, ela acompanhou as primeiras reuniões e incentivou a filha a assumir a presidência, mesmo diante da descrença de parte da comunidade. “Nem acreditava que essa associação ia para frente, porque aqui nada ia para frente. Mas ela pegou essa associação e lutou. Hoje eu me sinto honrada e feliz”, frisa.
Com a projeção conquistada, a Associação das Redeiras de Limpo Grande se prepara para novos passos. O grupo estuda caminhos para exportação com apoio da ApexBrasil e busca estruturar a comunidade para receber turistas, com sinalização, rota de visitação e maior integração ao turismo cultural de Mato Grosso.
“Nosso sonho é colocar o Limpo Grande na rota turística do Estado. A gente tem um aeroporto na nossa cidade e turistas que chegam poderiam conhecer essa técnica que só existe aqui”, defende Jilaine.
Segundo ela, os editais culturais tiveram papel decisivo para transformar uma tradição ameaçada em oportunidade de renda, autoestima e desenvolvimento local. “Esses editais contribuem para o crescimento dessas mulheres. Geram renda, dão visibilidade e ajudam a manter viva a nossa cultura. Hoje a Associação das Redeiras se tornou referência no que faz”, conclui.
Fonte: Governo MT – MT























