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Por Nilson Lattari

As horas passam e eu não consigo fechar os olhos, uma insônia interrompeu meu sono, enquanto a noite segue sua viagem e me conformo em amanhecer na janela, olhando para as ruas silenciosas. Em minhas mãos um cigarro aceso, uma luz perdida na escuridão, e a noite é uma onda negra golpeando o beiral onde meus braços estão apoiados, e minha cabeça quase adormecendo leva meus olhos na direção do beco escuro, abaixo, que une as duas ruas mais bem iluminadas.

O calçamento do beco estreito, às vezes falho, é iluminado por uma lua preguiçosa que cumpre o seu passeio pelo firmamento, soberba e fria, quando o silêncio é quebrado por um som de tacos, marcados por um andar apertado, apressado, dentro da noite vazia.

Assoma na esquina uma figura feminina, caminhando entre o parco iluminar enluarado e a sombra dos prédios marginais. Meu olhar se perde naquela cabeleireira esvoaçante e acelerada, tentando imaginar, adivinhar quem seria aquela que caminha, solitária, pelo calçamento.

Ela entra no beco pouco iluminado, e a lua, até então a única companheira, com olhar ciumento, em uma suave movimento ilumina um pouco mais o caminho enlutado, tentando descobrir, também, quem era ela. A figura, até então representada pela sombra esticada na rua, à medida que caminha vê a si mesma subir pela parede em frente, como um lápis cósmico a começar um poema. E ela para, como que extasiada, ao se ver refletida como na tela de um cinema.

Surpreendentemente, ela retira a bolsa que levava a tiracolo e a põe no chão do beco. Esticando os braços, ela está estática, como a arrumar o corpo, e começa uma dança envolvente. Nos passos estudados, é seguida pela lua, cada vez mais curiosa, que levanta mais ainda seu foco, como se fosse a iluminadora responsável pelo evento.

Na sombra refletida na parede, as suas roupas começam a obedecer ao salto no ar, e ela começa a bailar como uma bailarina eletrizada, que está decidida a encantar uma plateia, uma estudante talentosa, surpreendida em um momento de inspiração que se vê num espelho ausente, e a sua sombra, simplesmente, ouvindo uma música inexistente, rodopia com graça, e eu, surpreso, ouço as batidas de suas mãos e os pés se encontrando no ar, ameaçando com as minhas próprias mãos, também espalmadas, a acompanhar o ritmo ardente, ecoando no espaço.

Olho para os lados e torço para que seja o único assistente daquela louca a se exibir no beco vazio, e até posso imaginar a música, observando, tão somente, seus passos harmoniosos e compassados.

A lua se aproxima um pouco mais, mas ela recua se adequando à tela inexistente. Depois de algum tempo, em que exibe os passos estudados, ela vai suavizando a cadência dos passos, até que a sombra obediente se recolhe aos poucos até sua dona, quando, de repente, envolvendo-se, faz uma trança, iniciando um rodopio alucinante, e elevando os braços termina a sua dança.

Docemente, seu corpo vai retomando a postura, e ela recolhe sua bolsa e a abraça, como se agradecesse ao mundo a oportunidade, e eleva seu olhar para o alto, onde a pequena luz do meu cigarro é o olhar presente. Meu aplauso permaneceu inerte no ar, como se temesse interromper o caminhar das sombras.

Não sei se ela sorriu agradecida pela minha companhia solitária, quando desapareceu na pouca iluminação, reaparecendo, por instantes, na outra rua, como um ser que apenas se retira para sua casa.

Meu olhar a seguiu, e eu fiquei junto da janela apaixonado por sua sombra que, ainda, permaneceu lá, dando o bis, recordando a sua travessura de criança, na lembrança que sempre guardarei dela.

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